Ciclos – Crônica de Rohane de Lima

Crônica de Rohane de Lima

Só uma mulher que nunca tomou anticoncepcional sabe a maravilha que é Trepar no Cio!

Trepar, sentir tesão, transar… pra isso não tem data, todo dia é dia, basta estar bem consigo e se permitir ao Corpo. Mas… Trepar no Cio… Se for com Amor, melhor ainda, se esse amor é bom de cama, se ele sabe o que é uma Mulher no Cio, Não há nada nesse Mundo que se compare a isso. Se sua companhia sabe o que é uma Mulher no Cio, existirá o Tempo sem relógio, existirá o Espaço que antecede e transcende ao Tempo .

Não há poeta, ou poetiza, romancista, roteirista e escritor pornô, homem/ mulher que descreva tamanho transbordamento em nenhum idioma. O Manifestado é sempre Indescritível!

Quando a Mulher passa a ter consciência de seus ciclos e os relaciona com a própria Libido, vai superando essa “necessidade” de fazer sexo todos os dias, e – mesmo se a relação for novidade e cheia de descobertas, quando o desejo vai muito além do corpo… o desejo de conhecer a alma, de penetrar e transbordar segredos e idiossincrasias se mistura e se alterna com o desejo de conhecer e desvendar o desejo do outro, o corpo do outro e como o seu corpo reage ao corpo do outro.

Ainda assim, existe a prevalência dos ciclos, e se a gente vai muito além, começa a ter medo do vazio do outro, pq esse vazio vai revelar o nosso próprio vazio! Então a gente sente a necessidade de recolher-se, de acolher-se, preencher-se de si, para o novo florescer, o novo Cio, o renascer de cada mês. Como esse enternecimento, esse auto acolhimento, esse recolher-se “nunca” foi respeitado pelas sociedades humanas (antes do Patriarcado, os registros são controversos, por isso o “nunca”) muitas de nós desenvolvemos a TPM, a fúria insana que, infelizmente, só foi temida como Chacota.

Nosso sangue passou a ser visto como algo sujo, a ser rejeitado, nosso corpo passou a ser visto como impuro, nosso orgasmo foi visto como algo assustador e além daquilo que esperavam do nós: dar herdeiros aos homens, produzir trabalhadores para o Mercado. As mulheres que não aceitaram isso, as que perceberam previamente o nosso encarceramento moral, rebelaram-se e então viramos bruxas, possessas endemoniadas. Hoje as coisas mudaram: somos histéricas, feias, machudas, bruacas, desequilibradas e estamos com TPM, ou com falta de homem.

Perdoai-os Avós, Mães, Filhas, Netas, eles não sabem o que dizem, o que fazem, e nem por que pensam e sentem dessa forma. Eles não sabem o que perderam, o que perdem, o que perderão! Penso e sinto que, ainda hoje, a maioria dos Homens nunca assistiu, nunca compartilhou esse transbordar-se, pq estão desatentos, ou olhando para os seus vazios, enquanto os nossos vazios transbordam; enquanto a Deusa em Nós se faz Presente.

Depois desse viver a própria morte, também perdem as cenas em que respiramos profunda e suavemente, onde sorrimos sozinhas e saímos do corpo entre cantos e piruetas! Acho que deve ser porque eles precisam entregar-se aos seus esgotamentos nos braços de Morpheu.

* Rohane de Lima é amapaense radicada no Rio de Janeiro. Ela é engenheira agrônoma e professora aposentada da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).
** Contribuição de Fernando Canto.

  • Que crônica incrível que amiga Rohane
    Fiquei verdadeiramente impressionado com a maneira como você abordou esse tema tão importante e delicado. Sua escrita foi envolvente, sensível e profundamente empoderadora. Você trouxe à tona questões que muitas vezes são silenciadas e explorou a importância do cio feminino de uma forma tão genuína e respeitosa. Além disso, sua crônica foi extremamente informativa, desmistificando tabus e incentivando a conversa aberta sobre sexualidade e prazer.
    Tenho certeza de que muitas mulheres se sentirão representadas e encorajadas ao ler suas palavras.
    Adorei, amiga, adorei.

  • Realmente quando parei de tomar pílula foi uma reviravolta. A Energia foi tanta que mudei a vida toda: marido, casa, emprego..muita gente achou que eu estava ficando louca. Na verdade eu só estava desabrochando e nunca estive tão consciente. Tomar posse do próprio prazer significa tomar posse do próprio corpo e consequentemente da própria vida. E esse poder só assusta a quem de fato quer nos dominar ou a quem ainda não reconheceu a sua potência. Gratidão por compartilhar esse texto!

  • Que forte! “Enquanto nossos vazios transbordam…” ! Me transportou para um rito belo! Me senti no meio de uma roda de mulheres, bruxas enquanto te lia.
    Que lindo seria se todas e todos pudessem ter consciência de seus ciclos. Muito nos é roubado quando perdemos essa consciência. Essencial estarmos sempre atentas e nos apropriar de nós mesmas!

  • Que maravilha este texto, impactante, verdadeiro e provoca a reflexão! Muito obrigada por se expressar e compartilhar . Parabéns!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *