Entre o Céu e o Inferno – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares
Se existir inferno – e confesso minhas dúvidas – cada alma deve encontrar nele suas próprias agonias personalizadas. Nada daquele terror clássico com chamas eternas e o “Coisa Ruim” a chicotear sem piedade, como na obra de Dante Alighieri. Meu inferno é mais simples, mas igualmente insuportável: calor sem trégua, como Macapá em setembro, sem ar-condicionado e com um sol que parece um castigo.
Nesse cenário, a trilha sonora seria um looping eterno de sertanejo e tecnomelody. Pior: eu estaria cercado de gente politicamente correta, falsa e invejosa, com sorrisos plásticos e veneno nas palavras. O ambiente seria infestado por incompetentes e puxa-sacos, sempre prontos para ostentar os padrinhos que lhes garantem privilégios. E, claro, eu teria que conviver com todos eles diariamente.
No meu inferno, o relógio não funciona para os outros. Gente atrasada me deixaria a esperar por horas. Caloteiros e enrolões seriam regra, com desculpas intermináveis para atrasar pagamentos. Tudo teria fila – longa, lenta e exaustiva – e a Kaiser seria a única cerveja disponível.

Mas e o céu? Ah, o céu tem que existir também, mesmo que seja na cabeça de cada um. No meu céu, as portas se abrem para uma chuva torrencial que refresca e acalma, mas nunca causam enchentes. Lá encontro meus amores que viraram saudade, em abraços eternos que dissipam as dores terrenas.
Nesse paraíso, não existem puxa-sacos nem fofocas. Serviços são pagos na hora e ninguém tenta levar vantagem sobre o outro. As comidas são deliciosas – churrascos, pizzas e sanduíches –, sem a culpa ou os quilos extras. O rock rola solto, com shows eternos de lendas que já se despediram da terra. E ressaca? Inexistente.
Meu céu não tem lugar para puritanismo hipócrita ou trombetas angelicais. É um espaço moldado pela harmonia de tudo o que nos faz falta aqui embaixo. Lá, não importa o nome do chefe: Deus, Alah, Morgan Freeman ou até o Deus de Spinoza, que só se revela na beleza das coisas.
No fim, talvez o céu e o inferno coexistam no cotidiano. Às vezes, estamos a subir escadas para o paraíso; noutras, tropeçamos nas labaredas do inferno. O importante é saber que, enquanto Deus for meu brother, sempre haverá um cantinho celestial no meu aguardo – mesmo que por intervalos curtos entre as batalhas.
Como seria o seu céu ou seu inferno?

*Texto fruto de mistura de duas outras crônicas, “Meu inferno” e “Meu céu“, do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, lançado em 2020.
