Minha conversa com Brother Arnaldo – Crônica de Marcelo Guido – @Guidohardcore

Crônica de Marcelo Guido
Brother Arnaldo apareceu depois de vagar tanto Na Interzona que eu já estava achando que ele tinha aberto uma filial da própria ausência. Chegou com aquele sorriso de quem descobriu um atalho entre duas dimensões e anunciou, cheio de orgulho:
— Agora tenho um Automóvel Verde!
Olhei para ele e perguntei da Bicicleta.
— Abandonei. Ela pedalava mais minhas dúvidas do que minhas pernas.
Achei justo. Bicicletas também merecem férias.
Depois contou que perdeu um bom tempo, lá por 1969, compondo uma Canção para Syd Barrett. Disse que era uma homenagem sincera, embora ninguém conseguisse descobrir onde terminava a melodia e começava a conversa com os postes. Garantiu ainda que Syd se comportava exatamente como o Meu Amigo Inglês, aquele que conseguia tomar chá olhando para o teto, como se esperasse uma resposta das lâmpadas.
Entre um gole de café e outro, revelou que certa vez embarcou no Expresso Panorâmica. A viagem foi inesquecível. Pela janela viu Mini prédios e Virgulas crescendo entre pontos e reticências, como se a cidade inteira tivesse sido construída por um revisor de textos em crise existencial. Jurou que um ponto e vírgula pediu informação, mas ele preferiu não discutir gramática com a paisagem.

No fim da conversa, Brother Arnaldo deu de ombros, ajeitou o casaco e confessou que ainda procura amizades Que Dissolve, talvez porque algumas pessoas tenham prazo de validade menor que um sonho de terça-feira. Mesmo assim, segue firme com sua Stereo Vitrola, vagando Pelo Espaço Líquido, como quem sabe que o universo faz mais sentido quando a agulha encontra o sulco certo.
Texto em homenagem a um dos melhores discos já feitos e a melhor canção já composta em Macapá.
Ah , a banda é muito legal .
