O domingo emoldurado em silêncio e a velha infância – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares
Domingo nascia com o som da MPB no toca-discos. O vinil rodava, a agulha deslizava e a música preenchia a casa com lentidão confortável. Meu pai sentava à mesa, segurava a cerveja já fria e mergulhava no ritual do silêncio. Minha mãe, entre panelas, espalhava o cheiro do almoço e o calor do cuidado.
Pés descalços, eu cruzava o corredor. Esperava, ainda sem entender, a grandeza do que vivíamos. A música tocava — “Casa no campo”, “Canção da América” — e tudo parecia caber no intervalo entre uma nota e outra. Cada faixa acalmava, como abraço sem palavra. O lar se tornava templo. Os diálogos nasciam espontâneos, memórias trocadas com leveza: “Zock (apelido me dado por Zé Penha, meu saudoso pai) sobre issos e aquilos”. Meu irmão sempre engraçado e sapeca dentro desses diálogos. Era mais que conversa: era costura afetiva.

A presença da família, em conversas ou mesmo calada, bastava. Havia elo, raiz, entendimento profundo. Eu sorvi a dimensão de cada instante.
Com o tempo, o vinil deu lugar ao CD, depois à música digital. O toca-discos se calou, mas o domingo daquele tempo sobrevive intacto na memória. Resiste como trilha interna, referência de paz. Aqueles momentos moldaram o que entendo por lar: não o lugar físico, mas o sentimento completo — feito de som, comida, risos e contemplação.

Domingo permaneceu fixo dentro de mim, cifrado em afeto cristalino. Um sopro de lembrança para todas as manhãs que ainda me habitam. Domingo foi casa, música, memória — devoção simples, vasta, eterna.
Hoje, ao ouvir uma velha canção, volto àqueles domingos. Encontro meu pai (que hoje está do outro lado da vida), minha mãe na cozinha, eu feliz na morada interna. Parte de mim que nunca deixou de girar como aquele velho vinil.
