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Onde a noite nunca termina – Crônica de Marcelo Guido – @Guidohardcore

Foto: Márcia do Carmo

Crônica de Marcelo Guido

Na Praça da Bandeira, berço do underground de Macapá, o Viper transformou um show em memória, fazendo do tempo apenas mais um detalhe diante da força de uma paixão que atravessa gerações.

Existem lugares que guardam mais do que concreto, árvores e bancos. Existem lugares que preservam vozes, encontros, descobertas e sonhos. A Praça da Bandeira sempre foi assim para mim. Antes mesmo de compreender o que significava pertencer a uma cena, eu já intuía que era ali que alguma coisa acontecia. Foi naquele pedaço de cidade que o underground de Macapá começou a pulsar com mais força, onde camisetas pretas, fitas cassete, vinis, e conversas intermináveis fizeram nascer uma comunidade unida por um sentimento comum. A Praça da Bandeira nunca foi apenas uma praça. Sempre foi um território de resistência, um lugar onde aprendemos que a música também podia ser uma forma de existir.

Por isso, quando o Viper subiu ao palco naquele mesmo chão, tive a impressão de que o tempo havia desistido de seguir em frente. Tudo parecia conversar: a praça, a banda, a cidade e aquele adolescente que ainda mora em algum lugar dentro de mim. Não era apenas um show. Era a história encontrando a memória.

O Viper nunca foi somente uma banda. Foi uma porta aberta. Foi a certeza de que o heavy metal brasileiro podia falar sua própria língua sem perder a força, a técnica e a grandiosidade. Para muitos da minha geração, foi o primeiro grande nome nacional a mostrar que era possível sonhar alto. Por isso permanece, com toda justiça, como um dos maiores expoentes do metal brasileiro.

Minha história com o Viper começou como a de tantos outros: colocando uma fita para tocar e descobrindo um universo inteiro dentro de quatro discos que moldaram não apenas a trajetória da banda, mas também a formação sentimental de quem cresceu ouvindo heavy metal no Brasil. Soldiers of Sunrise ( 1987)  surgiu como uma promessa impossível de ignorar, carregando a ousadia de jovens músicos que pareciam desafiar qualquer limite.

Depois veio o fenomenal “Theatre of Fate” (1989), um daqueles discos que não envelhecem porque pertencem a outro tempo, um tempo onde emoção, melodia e peso encontravam um equilíbrio quase perfeito. Em seguida, “Evolution” (1992) ,mostrou que crescer também significava transformar-se, ampliando horizontes sem renunciar à própria essência. E “Coma Rage” (1995) encerrou aquela primeira grande fase com coragem, maturidade e personalidade, deixando claro que a inquietação sempre foi uma das marcas do Viper.

Esses discos não passaram apenas pelos meus ouvidos. Eles passaram pela minha vida. Acompanharam descobertas, amizades, viagens, silêncios, perdas e reencontros. Tornaram-se uma espécie de mapa afetivo que continuo consultando sempre que preciso lembrar de quem sou.

Nenhuma lembrança dessa trajetória estaria completa sem reverenciar André Matos. Sua voz não pertence apenas à história do Viper; pertence à memória afetiva de toda uma geração. Há artistas que interpretam canções. André transformava canções em paisagens emocionais. Sua ausência nunca conseguiu vencer sua presença, porque ela continua ecoando em cada pessoa que ainda se emociona ao ouvi-lo. Minha saudação também vai a Pit Passarell, cuja sensibilidade como compositor, baixista e fundador ajudou a construir um dos capítulos mais importantes da música pesada brasileira. Seu legado permanece vivo em cada acorde que atravessou décadas sem perder a capacidade de emocionar.

E então chega “Living For The Night”. Existem músicas que fazem sucesso. Existem músicas que definem uma época. E existem aquelas raríssimas que ultrapassam a própria condição de canção para se tornarem símbolos. Para mim, “Living For The Night” é isso: um dos maiores símbolos do metal nacional. Ela carrega uma melancolia luminosa, uma força serena e uma beleza que desafia o tempo. Quando seus primeiros acordes ecoaram pela Praça da Bandeira, senti que não era apenas o público que cantava. Cantavam também todas as lembranças guardadas naquele lugar, todos os amigos que dividiram sonhos, todos os rostos que passaram por aquela praça e todos aqueles que já partiram, mas continuam presentes através da música.

Naquele instante, pensei em André Matos. Pensei em Pit Passarell. Pensei nos amigos que conheci por causa do metal, nos que seguiram outros caminhos e nos que permaneceram. Pensei no garoto que atravessava a cidade para comprar um disco, gravar uma fita ou simplesmente conversar sobre bandas durante horas. E percebi que ele nunca foi embora. Apenas aprendeu a conviver com o tempo.

Quando as luzes se apagaram e o último aplauso desapareceu na noite de Macapá, compreendi que aquele show realizava um compromisso antigo com a minha adolescência. Um encontro esperado durante décadas finalmente havia acontecido. Mas não senti a sensação de missão cumprida que costuma acompanhar os finais. Pelo contrário. Entendi que algumas histórias não existem para terminar. Elas continuam nos acompanhando, mudando de forma, encontrando novos significados, reaparecendo quando menos esperamos.

Talvez seja isso que chamamos de memória. Ela nunca fecha um ciclo; apenas nos devolve, de tempos em tempos, àquilo que realmente importa.

Naquela noite, a Praça da Bandeira voltou a ser o lugar onde tudo começou. E, por algumas horas, também se tornou o lugar onde descobri que certas paixões não pertencem ao passado. Elas continuam vivendo dentro de nós, “living for the night”, enquanto houver alguém disposto a lembrar.

1 comentários

  1. Não consegui prestigiar o grande evento, mas soube da repercussão e boas memórias que o Show proporcionou. É Rock and Roll, é Rock in Macapá.

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