Poema de agora: Oriente – Luiz Jorge Ferreira

Oriente
Deus acabou de criar-me e cuspiu
Eu saí manco, correndo, tropeçando, desdentado, anão.
Por sorte duas mulheres nuas
Jogando pedras na lua
Deitaram-me entre elas e eu mamei
Elas cataram meus piolhos, teceram fios com os meus pelos,
E com meus olhos fizeram dois candeeiros
Que acenderam entre o sul e o sol.

Primeira manhã
Minha irmã catava manhãs frias
Colhia sobras de outros dias
E mastigava avelas
Fazia um barulho azedo
Preparava-se para menstruar quando morreu.
Primeira tarde
Primeiro passaram os cavalos
Magros, cheios de carrapatos, As patas sujas de quilômetros
Os dentes sujos da fome
O dorso manchado de chicotes
Vinham do norte, como eu.
Epilogo
Nunca mais acordei.
Quando Deus me procurou
Eu me escondi dentro de mim
E nunca mais me achei.
Luiz Jorge Ferreira.
