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Poema de agora: Oriente – Luiz Jorge Ferreira

Elton Tavares Amapá, Arte, Cultura, interessante, Literatura, Macapá, Poema, poesia 7 de junho de 2026

Oriente

Deus acabou de criar-me e cuspiu
Eu saí manco, correndo, tropeçando, desdentado, anão.
Por sorte duas mulheres nuas
Jogando pedras na lua
Deitaram-me entre elas e eu mamei
Elas cataram meus piolhos, teceram fios com os meus pelos,
E com meus olhos fizeram dois candeeiros
Que acenderam entre o sul e o sol.

Primeira manhã

Minha irmã catava manhãs frias
Colhia sobras de outros dias
E mastigava avelas
Fazia um barulho azedo
Preparava-se para menstruar quando morreu.

Primeira tarde

Primeiro passaram os cavalos
Magros, cheios de carrapatos, As patas sujas de quilômetros
Os dentes sujos da fome
O dorso manchado de chicotes
Vinham do norte, como eu.

Epilogo

Nunca mais acordei.
Quando Deus me procurou
Eu me escondi dentro de mim
E nunca mais me achei.

Luiz Jorge Ferreira.

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