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“Ansiosysmus”, o novo disco da stereovitrola: a maturidade de quem não se dobra em 21 anos de rock, atitude e resistência

No Amapá, fazer rock autoral é difícil pra caralho. Em um estado onde o apoio ao rock é – e sempre foi – fraco, a stereovitrola (sim, com “s” minúsculo, mas um som em caixa alta) continua como uma das mais genuínas expressões do rock nortista. Em 2025, a banda completa 21 anos de estrada e lança seu novo trabalho, o EP “Ansiosysmus”, um registro poderoso da maturidade criativa de quem sobreviveu — e floresceu — em meio à falta de estrutura e incentivo. O disco foi produzido por Alan Flexa e gravado no Zarolho Records.

São cinco faixas que traduzem um tempo em que o mundo parece rodar mais rápido do que nossa cabeça pode suportar. Destaques para “Na Orla da Cidade” e “O Servil”, músicas que já ecoam entre os becos do underground tucuju, cantadas de memória por quem entende que ser fã da stereo é mais do que gostar de rock… é fazer parte de uma irmandade sonora de resistência.

Com apenas 50 cópias físicas, o EP é uma raridade preciosa. E, como disse Ruan Patrick, “é preciso curtir e valorizar o áudio ilegal tucuju”, essa alquimia sonora que só poderia nascer no meio da Amazônia.

A formação atual — Ruan Patrick (voz, guitarra e composições), Marinho Pereira (baixo), Rubens Ferro (bateria) e Wenderson Matrix (samplers e efeitos sintetizados) — mantém o DNA original da stereo: a mistura precisa entre o peso do rock de garagem, a melancolia psicodélica e o experimentalismo do pós-punk. É uma sonoridade que conversa com o caos urbano de Macapá, mas também com qualquer ouvinte do mundo que reconhece a beleza do som feito com verdade.

De “Cada Molécula é um Ser” a “Ansiosysmus”

A stereo, como é chamada carinhosamente por quem acompanha sua trajetória, nasceu em 2004, numa Macapá em que o rock underground vivia dias de sombra. Naquele tempo, antes mesmo de o movimento Liberdade ao Rock existir, os garotos resolveram subir ao palco para tocar covers. Mas, felizmente, a inquietação falou mais alto. Quando Almir Júnior, o “Liguento”, saiu dos vocais, abriu-se o espaço para o que viria a ser a essência da banda: músicas próprias com alma, ruído e identidade.

A discografia da banda é um mapa emocional da resistência autoral no Amapá. Do primeiro álbum, “Cada Molécula é um Ser” (2006), passa por “No Espaço Líquido” (2009), o preferido de muitos, até os potentes “Symptomatosys” (2012) e “Macacoari, Rio Triste!” (2017), cada obra representa uma fase de amadurecimento e ousadia. Agora, com o novo EP “Ansiosysmus”, a banda alcança outro patamar sonoro e lírico.

Som autoral, coragem e teimosia

Fazer um disco autoral no Amapá é um desafio que vai além do estúdio. É lutar contra a falta de patrocínio e de espaços para tocar. É investir tempo, suor e amor em um projeto que, muitas vezes, sobrevive mais pela teimosia do que pelo retorno financeiro. A stereovitrola sempre entendeu isso. Em duas décadas, nunca se rendeu ao comodismo de tocar o que “vende” e preferiu sempre criar o que sente.

O som dos caras tem textura e tem conceito. Eles são a prova viva de que o rock autoral amapaense tem voz, nervo e identidade própria. A stereo não é só uma banda. É uma atitude. Um manifesto sonoro que há 21 anos desafia o silêncio da mesmice com guitarras que falam mais alto que qualquer discurso.

Força sempre, stereovitrola! Sucesso com o novo álbum. O som de vocês é o barulho bonito da resistência.

Elton Tavares – Jornalista, escritor e fã da stereovitrola desde 2004.

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