Discos que Formaram meu Caráter (Parte 42) – “Vivendo e não Aprendendo” … Ira! (1986) – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Muito bem galera! O louco viajante das notas musicais vem novamente, das profundezas inconstantes do ser, completamente no espaço líquido (menção honrosa para stereovitrola) trazendo na bagagem mais um calhamaço de sons pra vocês. Levantem e contemplem o magistral:

“Vivendo e não Aprendendo”: segundo álbum dos caras do Ira! Palmas pra ele. 

Corria o ano de 1986, Sarney na presidência, a ditadura indo embora há pouco tempo, ressaca gloriosa do Rock in Rio, as rádios dominadas pelas bandas nacionais e internacionais e o Brasil passando a ser escala dos grandes shows. O Rock começava a fazer parte do dia-a-dia dos brasileiros.

Dentro desde contexto deveras agradável, a rapaziada de São Paulo, capitaneados por Nasi e Edgar entraram em estúdio para preparar essa verdadeira bolacha explosiva de sons.

Na batalha desde 1981 e com um disco muito bom intitulado “Mudança de Comportamento” (1985) na bagagem, o pessoal estava passando pela velha pressão do segundo disco, ou iria para frente ou ficaria marcada por ser mais uma banda de um disco só – a história da vida na música costuma ser cruel com alguns bons grupos.

Com brigas constantes entre o conjunto e o produtor, o mais provável era que a missão fosse abortada antes mesmo de existir, por insistirem em fazer uma sonoridade mais próxima do The Jam (Grande Banda) e influência marcante para os caras. Essa tensão toda fez com que os caras atrasassem as gravações e chegassem a trocar de produtor.

Frescuras e rugas resolvidas, eles entram em estúdio em maio de 86 e começam a trabalhar nas melodias que completariam as letras escritas por Nasi e Edgar. Em 25 de agosto do mesmo ano estava pronto.

Lançado em um apoteótico (hummmmm) show na praça do Relógio, campus da USP, onde 40 mil privilegiados – dentre eles Renato Russo e Paula Toller – com abertura do Violeta de Outono (excelente banda), a banda extremamente afinada apresentou ao grande público os clássicos “ Envelheço na cidade”, “Dias de Luta” e “Flores em Você”.

Discos estourando nas rádios, tema de abertura de novela na Globo (O Outro) tudo caminhando bem para os caras até chegar o Especial de Natal do Chacrinha, fazer aquele velho e bom playback onde o Ira! boicotou o programa ao ver o Biafra pegar uma sonora cagada do Velho Guerreiro, apenas por tirar a merda do gorro vermelho na hora da apresentação. Juro que, quando li isso na biografia do Nasi, intitulada “A Ira de Nasi” dos geniais Alexandre Petillo e Mauro Beting, eu achei rokenroll pra caralho.

Vamos ao que interessa, que é dissecar tal elemento sonoro:

O disco começa com um dos acordes mais conhecidos do rock brazuca em “Envelheço na Cidade”, sobre o tempo que vivemos. “Casa de papel”, a dureza do dia-a-dia, a realidade da vida adulta. “Dias de Luta”, as nossas vitórias diárias que muitas vezes são só importantes para nós mesmos. “Tanto quanto eu”, sobre a capacidade de cada um. “Vitrine Viva”, critica voraz ao modismo, ordens de consumo. “Flores em Você”, bem trabalhada, com quarteto de cordas, quase clássica, falando das escolhas individuais. “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, baladona, sobre como olhamos a vida quando somos mais novos. “Nas Ruas”, uma homenagem à selva de pedra. “Gritos na Multidão”, gravada ao vivo, saiu primeiro no obscuro compacto de estreia da banda em 1984 e veio com essa versão para o disco de estúdio. “Pobre Paulista”, polêmica, por causa dela os caras foram acusados de fascistas e os caralhos, mas é uma critica as pessoas que apoiavam a ditadura, os feios e ignorantes.

Putaquepariu que disco foda bicho!

Não preciso dizer que foi o maior sucesso comercial da banda, até o lançamento do “Ao Vivo MTV” e do “Acústico MTV”.

Se tu não conheces este disco, nem deve sonhar com a medalha de foda.

Lembro-me das tardes ouvindo “Dias de Luta”, com a suavidade na voz, e a singela interpretação que nos faz pensar sobre como podemos mudar de pensamento e atitude durante nossas vidas.

Conheci este sensacional trabalho, ainda no ano de 1993, e coloquei pessoalmente pra mim uma regra: se você quiser entender o Rock nacional dos anos 80 no Brasil, tem que ouvir o “Dois”, “As quatro Estações” ( Legião Urbana), Já falei deles aqui, “Selvagem” (Paralamas do Sucesso), falarei em breve deste, “Longe Demais das Capitais” (Engenheiros do Hawaii), já falado por aqui, “ Cabeça Dinossauro” (Titãs) – já falei desse também e “ Vivendo e Não Aprendendo” (Ira!) se tu passar por cima desses, não vai entender porra nenhuma.

No mais, não se indigne a escutar este disco no volume que não seja o Máximo.

* Marcelo Guido é Jornalista. Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

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