Expressão que Identifica (Crônica de Fernando Canto)

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Crônica de Fernando Canto

A frase “Que coisa pai d’égua!” ouvida por algum visitante de outras paragens brasileiras pode ser compreendida imediatamente pelo sentido da empolgação que comunica. Sua pronúncia externando algo maravilhoso é compartilhada pelo receptor, que daquela hora em diante vai entender verdadeiramente um pouco mais desse regionalismo tão arraigado da área leste da Amazônia.

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Mas a expressão “pai d’égua”, isolada traz outras conotações e sentidos não tão agradáveis aos ouvidos sensíveis, posto que suscita o estado de espírito do emissor, dado um determinado evento. Embora seu vocabulário possa estar influenciado pelos instrumentos da cultura de massa, que lhe tange e lhe enfeita diuturnamente, é ele quem decide a forma de pronunciar a dita expressão. Isso pode ser uma forma de resistência à perniciosidade gramatical da globalização, que tenta tudo uniformizar, para melhor vender. Ali, no dizer “pai d’égua”, se verbaliza a linguagem da rua que deixou de ser palavrão para adentar até os lares mais conservadores. E nessa expressão também mora um foco de personalidade e de identidade amazônica que deve ser preservada até onde não der mais, sob pena de perder-se, a exemplo de tantas outras.

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Linguagem, como se sabe, é um bem cultural dos mais importantes. Sem ela não haveria comunicação, logo decodificação de símbolos e valores. E se ela movimenta a sociedade e seus atores, então suas expressões nascidas do povo têm mais é que serem ditas e preservadas, pois são patrimônios de todos.

Quando falo, ás vezes propositadamente, uma expressão ou palavra desusada logo vem a censura: “Égua, mas tu és velho, heim?!” Respondo: “velho nada, sou pesquisador, queria observar tua reação”. E a censura atual tem nome de moda, de substituição ou de imposição de palavras. Palavras oriundas das maravilhas da tecnologia que podemos reconhecer como importantes para o aumento do vocabulário e para o enriquecimento do idioma. Porém, ainda usamos essas expressões consideradas obsoletas, que sem dúvida nos identificam, tal como a velha “pai d’égua”, provavelmente originária do Nordeste, dita como referência irônica, “aquele pai d’égua”, equivalente à “cabra da peste” ou “cabra da moléstia”.

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Ser “pai d’égua” na região amazônica é ser bom, legal, bacana, gente fina, etc. Pronunciada a expressão pode detonar admiração, deboche, susto, indignação, raiva e outros significados. No entanto sua redução (“Égua!”) pode complicar um pouco mais na comunicação. Minha amiga paraense H. que o diga: mestranda em Viçosa, casa alugada, empregada mineira, comida diferente, outros hábitos. E o tempo passando. Um dia, um pouco estressada pela exigência dos trabalhos acadêmicos e percebendo que a coisa não ia bem, pois a empregada só vivia aborrecida, perguntou a ela: “Escuta ô Rosa, por que você me chama a toda hora de ‘boba’? ‘Faz isso não, boba… tem pão não, boba… Que história é essa? Me respeita que eu sou sua patroa. ’ E Rosa falou: “Uai, sô! É a senhora que fica me ofendendo, me tratando mal, me chamando de égua. Égua isso, égua aquilo. Não sou égua não. Eu quero é a minha conta”.

– Pai d’égua essa! Era só o que faltava, pensou H. naquela hora, para depois cair na gargalhada.

*Do livro Adoradores do Sol, de 2010. 

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