Geografia e Música: Os bastidores da criação musical brasileira – Amapaenses – Por Gutemberg de Vilhena Silva

Por Gutemberg de Vilhena Silva

Escrevi este texto com o intuito de traçar algumas reflexões gerais e visões geográficas sobre partes do livro Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira – Amapaenses. Para tanto, busquei duas belas parcerias. As fotos e as ilustrações que dão vida a este texto foram feitas por Dayane Oliveira e Ronaldo Rony, respectivamente.

Escrito por Ruy Godinho, o livro recobre 40 das mais importantes criações musicais do Amapá, selecionadas após enquete feita por Godinho. O prefeito de Macapá, Clécio Luís, faz a abertura por dois motivos, um institucional e outro por amor. O primeiro, porque a obra é fruto de convite e financiamento da prefeitura comandada por Clécio, e o segundo – suponho ser o mais importante –, pela sua trajetória com a produção de espetáculos musicais na década de 1990 em Macapá. O prefácio foi lindamente escrito pelo meu amigo e colega na Unifap, Fernando Canto.

Em poucas palavras, Fernando soube sintetizar de forma primorosa o livro de Godinho. Uma das partes de seu texto que mais me marcaram foi: “A música também é um discurso: tem elasticidade e características específicas na sua confecção técnica e poética. Ela traz imagens e metáforas e até expressões populares que espelham os desejos e sentimentos de públicos diferenciados” (p. 15).

Fonte: https://www.jornaltornado.pt/os-mocambos-pioneiros-modernos-do-marabaixo/

A música genuinamente amapaense é recente e dispõe de muitos de seus protagonistas históricos ainda na ativa, como é o caso do próprio Fernando Canto.

As histórias relatadas no livro denotam, por um lado, que o grupo Os Mocambos, formado em 1960, foi um marco primordial da formação identitária da Música Popular Amapaense (MPA).

E, por outro, que o movimento Costa Norte, inspirado no Clube da Esquina e no Tropicalismo, deu musculatura a esta amapalidade, ou seja, a esta riqueza natural, social e histórica peculiares da identidade musical desse pedacinho de Amazônia.

Cabe ainda aqui uma menção ao Grupo Pilão, gestado tempos depois. Este grupo conseguiu despertar uma perspectiva original a respeito de letras e melodias a partir da utilização de “geograficidades amapaenses”, quer dizer, uma das peculiares marcas do grupo Pilão foi a rica alusão à fauna e flora, tambores e uso de narrativas locais do Amapá, todas muito populares entre os seus cancioneiros hoje.

Grupo Pilão: arquivo de Fernando Canto

O Bar Lennon, por seu turno, foi o pioneiro em Macapá a oportunizar que músicas compostas por cancioneiros locais também fossem tocadas em suas noitadas a fio, o que alavancou a MPA.

Bar Lennon, pioneiro em apresentações da MPA. Fonte: https://www.blogderocha.com.br/o-velho-bar-lennon/

A história afrodescendente – marcante no que chamamos de amapalidade – tem relevância entre os cancioneiros amapaenses por meio das narrativas em torno do Marabaixo e do Batuque, expressões culturais que percorrem a rica e tão sofrida história social amapaense. Ambos, enquanto marca celular da amapalidade, permeiam muitas letras e ritmos das músicas presentes no livro de Godinho. Os trajes, a bebida típica (gengibirra) e um pouquinho de suas historicidades são contadas de maneira leve e agradável nesta obra.

Para uma compreensão complementar, sugerimos que os leitores assistam ao documentário Marabaixo: Ciclo de Amor, Fé e Esperança.

Senhora afrodescendente – Expressão de mulher afrodescendente à esquerda dançando Marabaixo, uma marca angular na cultura amapaense.

Além das expressões culturais de matrizes africanas acima expostas, há ainda influência de muitos ritmos caribenhos que penetraram mentes e corações de cancioneiros amazônidas. Poderíamos destacar o zouk, o cacicó, a salsa, o compas, o beguine e o merengue entre os ritmos que foram se geograficizando em várias partes da Amazônia, inclusive a caribeanedade rítmica foi base para a criação da zankerada de Fineias Nelluty.

O espaço de fluxos, aqui representado acima de tudo pelas frequências radiofônicas, única opção para se conhecer os ritmos caribenhos na Amazônia até, pelo menos, fins dos anos 1980, foi fundamental para dar essa capilaridade à sonoridade do Caribe, criando uma psicosfera favorável para as muitas influências que essa caribeanedade teve e tem sobre os cancioneiros da Amazônia.

Há no livro músicas sobre o amor; que tratam dos anos de chumbo da Ditadura Militar; aos que morrem por lutas variadas, principalmente políticas; que se reportam a elementos da natureza amazônica ou ao planeta como um todo. Há ainda músicas sobre lugares representativos para a memória e cultura amapaenses; sobre a nossa herança conectada com a África; e, por fim, ao que representa ser/estar/morar nas terras de nossos povos originários já extintos. Além destes grupos temáticos há vários outros presentes nesta obra de Godinho.

No meio das tantas músicas do livro, vou mencionar primeiramente Lual (Naldo Maranhão e Jorge Oly). Embora a letra traga o amor e não a geografia como fundamento maior, eu não poderia deixar de fazer este registro. Esta música me causa uma sensação muito grande de prazer e, embora Amadeu Cavalcante seja a “voz mais imponente das canções amapaenses”, não posso deixar de mencionar que – para mim – Naldo Maranhão está no mesmo patamar. Aliás, para mim está acima, com a devida consideração para com o grande Amadeu.

Permito-me, a seguir, fazer análises de algumas letras do livro tomando como fio condutor a relação entre geografia e música, tema que ganha destaque em estudos de geografia cultural em décadas recentes. Para uma análise mais criteriosa desta relação em estudos de caso, sugiro assistirem ao belo documentário de Clicia Di Miceli intitulado InterAMAZÔNIAS – Uma Fronteira Musical.

Quero registrar em primeiro plano que muitas músicas da obra de Godinho tratam como tema central ou de maneira subliminar da natureza, seja por meio de narrativas culturais, sociais ou na vertente da luta por um planeta menos solapado pela destruição e pelo conflito, o que posiciona tais músicas direta ou indiretamente na rota de análises geográficas. Mesmo assim, ponho-me a traçar alguns paralelos mais objetivos entre geografia e música presentes no livro a seguir.

A música Igarapé das mulheres (Osmar Junior) é a mais geográfica do livro para mim, já que contém duas perspectivas muito ativas na geografia: o tempo e o espaço. Além destes dois pilares, há também a narrativa da natureza (do Igarapé das Mulheres), com suas idiossincrasias, fonte gnosiológica essencial de várias reflexões no âmbito da geografia.

Nessa linha de raciocínio, destaco também Vida boa (Zé Miguel), que marca o que chamaríamos na geografia de “tempo lento”, o tempo da vida despreocupada com as loucuras da cidade (principalmente a grande); da importância dada ao que está próximo, no cotidiano; dos prazeres gerados pela riqueza que temos em nossa geograficidade ribeirinha.

Açaí e ribeirinhos – À esquerda, o açaí, fruta muito consumida pelo amazônida. À direita, crianças ribeirinhas em canoa, o principal meio de deslocamento em toda a vasta região amazônica.

Muito se discute na geografia e em outras epistemologias regionais sobre o futuro do planeta. E não é para menos! Problemas como o aquecimento global, a devastação da natureza, a imensa quantidade de lixo despejada nos rios e florestas estão cada vez mais na ordem do dia.

Macapaenses praticando o kitesurf na orla de Macapá. O esporte é muito comum nesta cidade. Ao fundo, o belo cenário da Pérola Azulada

Estes temas são atuais e permanecerão enquanto o ser humano for um exímio predador. Aqui eu recomendaria que cada um destes barões da destruição escutasse Pérola azulada (Zé Miguel e Joãozinho Gomes, ) e Sentinela Nortente (Osmar Junior) para um pouco de reflexão sobre nosso belo e sofrido planeta Terra.

A música Jeito tucuju (Val Milhomem e Joãozinho Gomes) arrebata meus sentimentos geográficos mais agradáveis e energizantes. A geografia que na letra existe me coloca numa posição confortável quando meus muitos amigos de outros estados e países me pedem uma recomendação que sintetize a vida do amapaense.

O rio Amazonas e o povo Tucuju, indígenas tupis que moravam em Macapá e foram dizimados, são dois pilares da geo-história amapaense e – pelo que vi nas 40 canções do livro – foram pouco explorados nas letras de um modo geral.

À esquerda e direita abaixo, o imponente rio Amazonas visto de Macapá, capital do Amapá. À direita acima, indígena em Macapá.

Destacamos, ainda, uma das músicas dedicadas ao bairro do Laguinho. Meu destaque é para o ‘lado’ geográfico de Aonde tu vais, rapaz? (Raimundo Ladislau). Na tradição geográfica, os fenômenos que ocorrem nas cidades têm sua relevância. Quando essa ‘leitura’ é feita sobre situações, contextos e fatos do passado, destacando a espacialidade do que se está analisando, dá-se o nome de geografia histórica.

A música aqui em relevo é um exemplo dessa perspectiva à medida que destaca a transferência impositiva de negros que residiam no centro de Macapá para uma área da periferia, pouco depois do Amapá se tornar Território Federal, em 1943. Além disso, a letra nos condiciona a pensar as geometrias do poder, a partir do momento que analisamos o abismo que existe entre ricos e pobres em uma sociedade extremamente excludente, preconceituosa e – porque não dizer – extremamente racista, tanto hoje quanto no passado. Há ainda ao menos um elemento tratado pela geografia urbana: a noção de invasão-sucessão. À medida que um dado lugar vai sendo ocupado por detentores de “recursos financeiros”, os menos favorecidos são pressionados a se mudarem para outras áreas mais periféricas, fato este conectado ao que acima chamamos de geometria do poder.

Pessoas indumentarizadas para danças de Batuque e do Marabaixo em Macapá.

Pessoas indumentarizadas para danças de Batuque e do Marabaixo em Macapá.

Para finalizar, eu diria que, após ler o livro, o(a) leitor(a) terá a oportunidade de entender de maneira mais profunda e envolvente todo o processo contextual e criativo gerador das preciosidades musicais do Amapá. Quando algum amigo ou amiga quiser conhecer um pouco das belezas do Amapá, certamente este livro será uma das minhas recomendações essenciais. Torçamos para que o volume 2 não tarde a ser escrito, para que possamos conhecer fatos e contextos da criação de muitos outros cancioneiros amapaenses. Outra análise sobre esta obra que recomendo foi feita pelo meu amigo Ronaldo Rodrigues (https://www.blogderocha.com.br/entao-foi-assim-cronica-de-ronaldo-rodrigues/).

Gutemberg de Vilhena Silva, professor da Unifap. E-mail: [email protected]
Dayane Oliveira, produtora de audiovisual e fotógrafa. E-mail: [email protected]
Ronaldo Rony, cartunista. E-mail: [email protected]
Dr. Gutemberg de Vilhena Silva
Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

Edição: Elton Tavares

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    Lindo trabalho do nosso poeta Fernando Canto, resumindo o livro “Então foi assim” de nosso querido Ruy Godinho!!! Este trabalho mostra a grandeza de boa parte de nossas produções artísticas musicais, e o compromisso da gestão do prefeito Clécio Luís para com nossa cultura, criando apartir desta obra um extenso instrumento de pesquisa aos que por ventura busquem saber sobre nossos artistas e boa parte de nossa história musical…parabenizo também ao amigo Elton Tavares pela cumplicidade neste projeto, como em todos os outros dos quais tem prazer em repercuti-lo!!!
    Viva nossa arte e nossa cultura!!!

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