Resenha do livro “O Diário de Nisha – Veera Hiranandani (por Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Antes de falar sobre o livro, é importante contextualizar rapidamente sobre a Partição da Índia, que era um protetorado da Inglaterra. Em 1947, os britânicos, ocupados em focar em sua própria reconstrução no pós-guerra, acordaram a divisão do Raj britânico em dois países, Índia e Paquistão. A Índia, de maioria Hindu, enquanto o Paquistão era majoritariamente muçulmano. A partição fez as populações dos dois países migrarem para o país que, em sua maioria, professava a sua fé. Este deslocamento foi desastroso, ocasionando mortes, estupros e crimes dos mais diversos. Várias pessoas deixaram seus lares e todos os seus bens pra trás a fim de sobreviverem a uma atmosfera tomada pela intolerância religiosa.

O evento histórico é narrado no livro sob a ótica de uma menina de 12 anos, Nisha. Ela conta os acontecimentos a sua falecida mãe através das páginas de um diário.

Apesar da história trágica de um povo, o livro carrega uma beleza que, para mim, é até difícil sintetizar. O pai de Nisha é um médico rigoroso que tem uma relação difícil com Amil, o irmão de Nisha. Essa relação se transforma quando o pai se depara com a perda iminente. Apesar de todos os miseráveis dias que aquela família passa durante sua migração, o leitor percebe a cada dia os laços se solidificando, o que me faz pensar o quanto a desgraça compartilhada une pessoas.

Dadi, avó paterna de Nisha, incomodava a protagonista com alguns de seus hábitos. Incômodo este que some com o tempo, através de situações que tornam aquela misofonia menos importante, dando relevância ao que realmente é relevante na vida.

Nisha, que vivia em família Hindu, mas que tinha mãe muçulmana, questiona em sua inocência de menina, os motivos para que haja ódio entre Hindus, Sikhs e muçulmanos. Pois existe Kazi, um cozinheiro muçulmano que trabalha na casa de Nisha e que faz parte de sua família.

Kazi desperta em Nisha o amor pela culinária, fazendo os momentos na cozinha serem as horas em que a menina encontrava a paz.

É um livro lindíssimo, mas com passagens terríveis; apesar da própria protagonista, em alguns momentos, não perceber a gravidade do que está vivenciando, sente-se nesta leitura todo o terror da migração no caminho e dentro dos trens. A alegria por coisas comuns em nossos cotidianos, mas que são preciosidades para outros, ainda mais em tempos de guerra. A ansiedade e a tristeza, que alguns leitores, assim como eu, compartilham enxergando através dos olhos de uma criança. Graças à Jesus, Maomé, Trimúrti ou Guru Nanak, eu sigo tentando acreditar que a bondade ainda é inerente ao ser humano.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

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