O nosso jeito Pad’égua de falar – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares
Paid’égua como a gente fala bonito quando resolve falar feio. Porque falar, no Amapá, não é só abrir a boca não, maninho, maninha, é um espetáculo linguístico, um festival de espanto, ironia, admiração e, às vezes, só o filé da gurijuba com a polpa da bacaba.
Outro dia, ontonti mesmo, eu tava na esquina e merendei um salgado miudinho, quando passa um conhecido, todo charlado, roupa de grife do varal, calça tucandeira que denunciava que ele já tá do meio-dia pra tarde. Olhou pra mim e soltou:
Quede, mano?
Respondi:
Tá lá uma hora dessas.
Ele arregalou o olho:
Ééééééééguaaaa! Tu jura, não?
Teu cu!, respondi, na maior convicção. Não, que não.
A conversa nem tinha esquentado e já veio um carapanã porrudão de ideia errada. Dei um tapa no ar, errei o enxerido e escangalhei o copo. Aí foi geral:
Vigia bem o que tu tás fazendo, abestado!
Alvará!, falei. Afudega não.
Nessa hora, um outro, muito enxerido, se mete:
Mas uh caralho! Isso é pissica da braba. Só pode ser feitiço.
Égua da potoca!, gritei. Ulha, disque!

O clima ficou palha, fooolêgo. Um jurava que era migué, outro dizia “de rocha!”, enquanto um terceiro, que meteu corda na confusão, gritava:
Pega-te!
Quando tentaram me empurrar bebida, eu disse logo:
Hum, tá não! Bora lá só tu.
Vai querer queixar? Provocou o gala seca.
Táááá, não!, respondi. Tu acha isso bonito?
O sujeito ficou asilado na confusão, levou um Nike da turma, deram dizar no gatinho da Mabel. Ele saiu chutado, amuado e chamou todo mundo de zé ruela, cabeça de pica, pau no cu e disse que a gente era tudo peidado do juízo. Logo quem, não?
No fim, ficou só eu e mais dois, já na beira, e pagamos uma aí pra esfriar a cabeça. Um deles soltou:
Égua da largura, moleque! Sobrevivemos.

Pior, né?, respondi.
Amanhã é o vai da estrela, por isso vamo virar o zêzeu de novo hoje.
Levantamos, borimbora. Um ainda gritou de longe:
Umborimbora?
Bora!, respondi. Rapidola, antes que apareça outro malaco.
E assim seguimos, porque falar desse jeito é nossa marca… quer dizer, não, é cuia! É pão! É o nosso jeito padid’égua de existir, com riso, exagero e tudo o que precisa ser dito, mesmo quando ninguém perguntou. Égua, moleque-tu-é-doido!

Muito paidegia, humano. Hehehe
Aplausos de pé…o cara é adohp.
Égua, não, olha, vou te contar!!!