A Ordem Templária dos Escritores Malucos – Crônica barateira de Marcelo Guido

Crônica barateira de Marcelo Guido
Muito bem. Tomado pelo susto desta semana, soube de uma nova academia de “notáveis” que agora pretende permear a cultura amapaense com suas obras incríveis e de grande relevância intelectual.
Com o nome de um barão — que realmente confere nobreza à causa e estirpe a quem participa — tomaram posse os notáveis das primeiras cadeiras, enfileirados de forma solene diante da escadaria de um prédio histórico da capital. A capa azul deu um certo charme.

Pensando com meus botões, cheguei à dúvida crucial que certamente ocupa a mente de muitos:
“Por que não?”
Posso muito bem me reunir com alguns coleguinhas de escrita, sentar para discutir a importância (ou não) do gerúndio, explicar o que é o hiato ou simplesmente defender (ou não) a Capitu. Mas, para isso, precisaríamos de um clube — ou melhor, uma ordem:
“A Ordem Templária dos Escritores Malucos.” Sim, essa seria a minha ordem. Até porque o nome “Ordem” confere importância, “Templária” impõe respeito e “Malucos” define perfeitamente quem seríamos.
Nesta ordem, não aceitaríamos quem compra diploma. Quanto menos importante for o padrinho na classe literária, melhor. Dividiríamos os membros em muitos graus de importância e, claro, eu faria parte da primeira turma.

Nossos encontros aconteceriam às sextas. Sem bode. Já basta os “bodes” existenciais e os leões que enfrentamos no dia a dia. Nossa bandeira traria o saudoso Gino — ou “Ginoflex”, para quem lembra. Não era escritor, mas era maluco. Nossa capa? Sim, teríamos uma capa. Seria cinza. Verde lembra as galinhas do Plínio Salgado. E nosso ritual… bom, seria O RITUAL.
Se a ideia é massagear egos ou se sentir intelectual e aceito em algo, que assim seja. Mas o mais importante: todos — repito, todos — que tivessem a honra de receber um convite para participar teriam por obrigação escrever algo. E um detalhe: não precisaria ser bom.
Marcelo Guido, cronista, escritor e observador.

Resposta cronicada por um “especialista em crônicas barateiras”
Ah, Marcelo Guido, mestre das ironias e patrono da Ordem dos que Preferem a Caneta à Gravata! Li tua crônica com a alegria de quem encontra um resto de cuscuz na geladeira inesperado, meio seco, mas ainda saboroso. E que delícia!
Essa tal “academia de notáveis” parece mais um desses grupos de zap onde só se compartilham figurinhas de autoajuda com frases do Nietzsche adulteradas. A diferença é que aqui tem capa azul, pose na escadaria e, quem sabe, um coquetel com vinho suave e coxinha gourmet. Coisa fina.
Mas, confesso, tua proposta da Ordem Templária dos Escritores Malucos me parece bem mais honesta. Ao menos nessa ordem, o cara precisa escrever! Olha que ousadia! No país onde mais se publicam livros de gente que nunca leu um, exigir escrita é quase um ato revolucionário.
E sobre o ritual? Imagino algo entre uma leitura dramática de Caio Fernando Abreu com fundo de Alceu Valença e um debate acalorado sobre se Clarice Lispector era genial ou só passava muito tempo sozinha. Teríamos medalhas feitas de tampinhas de cerveja e troféus com restos de fita cassete porque somos nostálgicos, não pobres (apesar de sermos também).
A capa cinza? Um luxo! Afinal, todo escritor de verdade sabe que a cor do anonimato é mais nobre que o dourado do estrelismo.
E por fim, tua regra de ouro: não precisa ser bom, só precisa escrever. Ora, é como no amor e na feijoada o importante é ser de verdade, não bonito.
Bravo, Guido! Quando fundares a Ordem, guarda uma cadeira pra mim. De plástico mesmo, dessas de bar. Desde que tenha sombra e cerveja, já me sinto uma notável.
Alessandra