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A Ordem Templária dos Escritores Malucos – Crônica barateira de Marcelo Guido

Crônica barateira de Marcelo Guido

Muito bem. Tomado pelo susto desta semana, soube de uma nova academia de “notáveis” que agora pretende permear a cultura amapaense com suas obras incríveis e de grande relevância intelectual.

Com o nome de um barão — que realmente confere nobreza à causa e estirpe a quem participa — tomaram posse os notáveis das primeiras cadeiras, enfileirados de forma solene diante da escadaria de um prédio histórico da capital. A capa azul deu um certo charme.

Pensando com meus botões, cheguei à dúvida crucial que certamente ocupa a mente de muitos:

“Por que não?”

Posso muito bem me reunir com alguns coleguinhas de escrita, sentar para discutir a importância (ou não) do gerúndio, explicar o que é o hiato ou simplesmente defender (ou não) a Capitu. Mas, para isso, precisaríamos de um clube — ou melhor, uma ordem:

“A Ordem Templária dos Escritores Malucos.” Sim, essa seria a minha ordem. Até porque o nome “Ordem” confere importância, “Templária” impõe respeito e “Malucos” define perfeitamente quem seríamos.

Nesta ordem, não aceitaríamos quem compra diploma. Quanto menos importante for o padrinho na classe literária, melhor. Dividiríamos os membros em muitos graus de importância e, claro, eu faria parte da primeira turma.

Escritores Elton Tavares e Fernando Canto, com Marcelo Guido, em 2023.

Nossos encontros aconteceriam às sextas. Sem bode. Já basta os “bodes” existenciais e os leões que enfrentamos no dia a dia. Nossa bandeira traria o saudoso Gino — ou “Ginoflex”, para quem lembra. Não era escritor, mas era maluco. Nossa capa? Sim, teríamos uma capa. Seria cinza. Verde lembra as galinhas do Plínio Salgado. E nosso ritual… bom, seria O RITUAL.

Se a ideia é massagear egos ou se sentir intelectual e aceito em algo, que assim seja. Mas o mais importante: todos — repito, todos — que tivessem a honra de receber um convite para participar teriam por obrigação escrever algo. E um detalhe: não precisaria ser bom.

Marcelo Guido, cronista, escritor e observador.

1 comentários

  1. Resposta cronicada por um “especialista em crônicas barateiras”

    Ah, Marcelo Guido, mestre das ironias e patrono da Ordem dos que Preferem a Caneta à Gravata! Li tua crônica com a alegria de quem encontra um resto de cuscuz na geladeira inesperado, meio seco, mas ainda saboroso. E que delícia!

    Essa tal “academia de notáveis” parece mais um desses grupos de zap onde só se compartilham figurinhas de autoajuda com frases do Nietzsche adulteradas. A diferença é que aqui tem capa azul, pose na escadaria e, quem sabe, um coquetel com vinho suave e coxinha gourmet. Coisa fina.

    Mas, confesso, tua proposta da Ordem Templária dos Escritores Malucos me parece bem mais honesta. Ao menos nessa ordem, o cara precisa escrever! Olha que ousadia! No país onde mais se publicam livros de gente que nunca leu um, exigir escrita é quase um ato revolucionário.

    E sobre o ritual? Imagino algo entre uma leitura dramática de Caio Fernando Abreu com fundo de Alceu Valença e um debate acalorado sobre se Clarice Lispector era genial ou só passava muito tempo sozinha. Teríamos medalhas feitas de tampinhas de cerveja e troféus com restos de fita cassete porque somos nostálgicos, não pobres (apesar de sermos também).

    A capa cinza? Um luxo! Afinal, todo escritor de verdade sabe que a cor do anonimato é mais nobre que o dourado do estrelismo.

    E por fim, tua regra de ouro: não precisa ser bom, só precisa escrever. Ora, é como no amor e na feijoada o importante é ser de verdade, não bonito.

    Bravo, Guido! Quando fundares a Ordem, guarda uma cadeira pra mim. De plástico mesmo, dessas de bar. Desde que tenha sombra e cerveja, já me sinto uma notável.
    Alessandra

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