Mas que saudades do Bar do Abreu: um texto de memória afetiva sobre a saudade de um lugar que foi, de verdade, muito importante – Crônica de Marcelo Guido – @Guidohardcore

Crônica de Marcelo Guido
Existem lugares que fecham as portas, mas nunca deixam de existir, permanecem vivos na memória, nas histórias repetidas entre amigos, no gosto que insiste em voltar à boca e na estranha sensação de que, a qualquer momento, basta dobrar a esquina para encontrá-los exatamente como eram.
Assim foi o Bar do Abreu.

Sim, senhores, que saudade das memoráveis tardes e noites de sábado e domingo. Das quartas-feiras regadas a futebol, quando cada lance parecia valer mais do que três pontos, das quintas, de todas as feiras e de qualquer dia da semana que encontrava um bom motivo para terminar ali ou começar. Afinal, no Bar do Abreu, o calendário nunca foi o que determinava a festa, eram as pessoas.
Faz falta o pires de frios chegando à mesa sem cerimônia, repartido entre conversas, gargalhadas e lembranças. Faz falta o tira-gosto de moela, daqueles que transformavam uma cerveja em duas, duas em três, e uma rápida passada em horas de boa prosa.

E a cerveja… sempre gelada, gelada como manda o figurino, servida no ponto exato, no “capricho”, para acompanhar uma conversa que nunca tinha hora para acabar.
Quem entrava pela primeira vez talvez enxergasse apenas um bar, quem voltava entendia que havia muito mais. As bugigangas cuidadosamente arrumadas pelas paredes e prateleiras não eram enfeites, eram capítulos de uma história. Cada objeto parecia ocupar exatamente o lugar onde deveria estar, compondo um universo único, acolhedor, quase mágico. Um cenário que nos fazia acreditar que aquele lugar seria eterno.

E talvez tenha sido.
Porque há eternidades que não dependem de paredes.

O Bar do Abreu carregava outra qualidade rara, seu balcão democrático. Ali não havia distinção, não importava profissão, sobrenome, condição ou idade. Em pé, apoiado naquele balcão, todo mundo eram iguais. O assunto circulava livremente, o riso também.
O desconhecido virava conhecido, o conhecido virava amigo, e o amigo se tornava parte da família que aquele bar, silenciosamente, formava.

E havia os convivas, fiéis como poucos. Gente que acompanhava o Bar para onde ele fosse, porque entendia que o endereço nunca foi o mais importante, o verdadeiro lugar era o encontro, era a amizade, era o ritual de sentar, pedir a primeira cerveja e deixar a vida acontecer.
Mas nada disso existiria sem Zé Ronaldo, o proprietário do Bar do Abreu, mais do que dono, ele era a alma da casa. Recebia a todos com a naturalidade de quem fazia questão de transformar clientes em amigos e amigos em família, sua presença era parte da identidade do bar, tão marcante quanto o balcão, a cerveja gelada, os petiscos ou as bugigangas espalhadas pelo salão. Zé Ronaldo faz uma imensa falta.

Sua ausência é sentida por todos que tiveram o privilégio de compartilhar aquele espaço e de conviver com alguém que entendia que um bar podia ser muito mais do que um comércio, podia ser um lugar de afeto, de pertencimento e de encontros inesquecíveis.
No fim das contas, talvez o Bar do Abreu nunca tenha sido apenas um estabelecimento, foi um ponto de encontro de vidas, um lugar onde o tempo diminuía a pressa, onde as diferenças ficavam do lado de fora e onde as amizades encontravam sempre uma cadeira vazia para mais um.

Há saudades que passam.
Outras aprendem a morar na gente.
A do Bar do Abreu e a de Zé Ronaldo, seu inesquecível proprietário é dessas.
