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Cleomar Berro d’Água, o homem que quase remou para a beira com um gole de água – Crônica de Marcelo Guido – @Guidohardcore

Fotos da noite do ocorrido, narrado por Marcelo Guido

 

Crônica de Marcelo Guido

Há quem enfrente tempestades, sobreviva a acidentes espetaculares ou escape de perigos inimagináveis. E há Cleomar Almeida.

A façanha que quase o levou desta para melhor aconteceu diante de testemunhas respeitáveis: Tica Lemos, Fernando Bedran, Elton Tavares e Elder de Abreu, parceiros de jornada, de conversa e, naquele dia, de um dos maiores sustos já provocados por um simples gole de água.

Tudo transcorria na mais absoluta tranquilidade, a noite brilhava, o papo corria solto e a vida seguia seu rumo, foi então que Cleomar resolveu praticar uma atividade de alto risco: beber água, junto a cerveja.

Sim, água.

Segundo relatos dos sobreviventes da cena, o gole entrou pelo caminho errado e, em questão de segundos, Cleomar iniciou uma luta épica contra o próprio organismo. Tossiu uma vez. Tossiu duas. Na terceira, já parecia estar negociando diretamente com o além.

Os olhos arregalaram, o rosto mudou de cor, os braços se agitaram numa coreografia desesperada. E foi nesse instante que Cleomar viu o filme de sua vida passar diante dos olhos.

Passou a infância.

Passou a juventude.

Passaram boletos pagos e boletos ainda por pagar.

Passaram amizades, causos, festas e até aquela promessa de começar a caminhar na segunda-feira.

Enquanto isso, Tica Lemos observava sem saber se oferecia socorro ou uma indicação para o Guinness Book, Elton Tavares tentava entender como alguém poderia ser derrotado por um copo d’água, Fernandinho, o mago das pimentas, já pensava em usar sua alquimia para reavivar o Negão.  E Elder de Abreu já preparava a versão oficial da história para contar aos amigos.

Por alguns segundos dramáticos, Cleomar chegou a acreditar que não conseguiria concluir sua missão terrena, dizem até que ensaiou remar para a beira, numa tentativa heroica de alcançar terra firme antes que o destino fosse decidido por uma molécula de H₂O.

Foi uma cena digna de romance brasileiro.

Tal qual Quincas Berro d’Água, Cleomar parecia dividido entre permanecer entre os vivos ou seguir rumo às águas misteriosas do desconhecido, a diferença é que Quincas tinha fama de boêmio, Cleomar quase foi derrotado por uma hidratação excessivamente ambiciosa.

Felizmente, após tosses capazes de assustar peixes em um raio de quilômetros, o guerreiro venceu a batalha, o ar voltou aos pulmões, a cor retornou ao rosto e a vida seguiu seu curso.

Mas a lenda permanece:

Hoje, quando os amigos se reúnem, ninguém fala de grandes aventuras, pescarias memoráveis ou feitos extraordinários. O assunto inevitavelmente volta para aquele dia histórico em que Cleomar Almeida quase remou para a beira, viu o filme da própria vida passar diante dos olhos e entrou para a história como o único homem capaz de transformar um simples gole de água numa experiência de quase morte.

Desde então, toda vez que alguém oferece um copo d’água a Cleomar, a recomendação é unânime:

Vá devagar, a gente não quer outro capítulo dessa saga.

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