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Como será quando eu morrer – Por Elton Tavares (*Do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias” de 2020 e republicado em razão da morte de mais um amigo).

Ilustração de Ronaldo Rony

Às vezes me pego a pensar: quando eu morrer, vão lembrar de mim por quanto tempo? De que forma recordarão este jornalista? Vira e mexe penso que, após quatro décadas de vida intensa, desviver pode estar próximo.

Será que vão contar piadas sobre situações inusitadas ou presepadas que cometi? Sei não. Talvez a família e os amigos mais próximos até sofram, mas logo esquecerão deste gordo, feio, chato e brigão. Quem sabe seja melhor assim. Dessa forma, não haverá muito mimimi… É que nunca fui dado a dramas.

Não sei se vou bater na porta de Deus ou do diabo (não que eu tenha cultuado forças maléficas ou feito mal a quem não procurou, mas ninguém conhece os critérios de avaliação da força que rege tudo isso aqui), se é que eles existem. Nada de exame de consciência, pois daria negativo.

Não sei se a passagem para outra vida representa a entrada na fila da reencarnação para outra existência, dimensão, planeta ou realidade paralela.

Não que eu esteja com pressa, mas penso mesmo no desencarne. Nada de finitude. Como dizem, todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer. Mas, se rolar, minha estada por aqui valeu a pena. E como valeu!

E o caixão? Vão ter que pegar um guarda-roupa, tirar portas e gavetas para caber este gordo. Só lembro do Sal, que uma vez me disse: “Porrudo, se tu morrer antes de mim, apesar de sermos brothers, não vou pegar na alça do teu caixão. É que não sou chegado a serviço pesado” (risos).

Não sei onde nem como acontecerá. Apenas suspeito. Acho que o cabo da matrix será puxado de repente, como um raio, num piscar de olhos. Tomara que seja assim. Esse negócio doido de morrer, que todos sabemos que vai acontecer, mas sempre nos surpreende, é muita onda.

Mas, de volta ao tema principal, como será depois que eu subir no telhado? Falo dos meus familiares e amigos. Espero que sintam a saudade gostosa que tenho do meu pai, aquela sem nenhum ressentimento.

Tenho certeza de que daria uma passada pelo Purgatório. Afinal, já magoei um monte de gente e dei porrada em outro tanto. Isso quando mais jovem, mas pecados são pecados. Não tem jeito.

Quero que na lápide esteja escrito: “Godão, ardoroso partidário da causa hedonista, botou pra quebrar. Amou os seus, combateu os inimigos de forma limpa, viveu como quis e se divertiu a valer. Com um histórico imenso de confusões, vítima da própria sinceridade.”

Aliás, desafetos é o que não me falta. Talvez role até uma festa para comemorar meu embarque para Caiena. Quando eu morrer, se valer a pena, alguém pode escrever. Eu autorizo. Mas, se falar mal, volto, e minha mizura cobre de porrada o autor da crítica.

Dizem que, quando a gente morre, passa um filme. O meu será um mix de romance, drama, aventura, humor e comédia. Enfim, quando chegar a hora, como disse o mestre Nelson Cavaquinho: “Quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear, mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar”. É por aí mesmo. Por isso vivo o agora. Digo a quem amo que os amo e honro os meus com declarações de amor viscerais. Pois é assim que deve ser. Mas afinal, como será quando eu morrer?

*Do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020.

**Republicada em razão do fato de, em menos de um ano, perdi quatro amigos jornalistas, o Ricardo Medeiros, Anibal Sérgio, José Menezes e Humberto Moreira. Pois toda vez que morre um amigo, vai um pedaço da gente junto.

 

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