Poema de agora: IMPRESSIONISMO – Patrícia Andrade

IMPRESSIONISMO

penso que agora
me encanto mais com o céu
olho ainda mais
para as árvores e flores
sinto cada vez mais
a intensa noite
e consigo ver melhor
o brilho das estrelas

absorvo luzes e tons
capto cores e matizes
e começo a perceber
que desvendar Van Gogh
é cortar a própria orelha

Patrícia Andrade

Poesia de agora: Anoiteço – Patrícia Andrade

Anoiteço

quando eu
te madrugava,
mesmo as noites sem lua
não pareciam assim
tão escuras

já não te amanheço,
e os dias têm sido
cada vez mais cinzentos

agora, quando entardece,
logo, logo,
anoiteço…

Patrícia Andrade

Poesia de agora: Uma Noite Me Namora – Patrícia Andrade

UMA NOITE ME NAMORA

entristeci no fim do dia…
mas brindei tantas vezes
com a noite
que ganhei a alegria
que precisava
pra bailar com a madrugada.
me enchi de desejo,
fiz amor com o amanhecer
e sonhei arco-íris
a tarde inteira,
à espera de outra noite
pra me cortejar…

Patrícia Andrade

Poema de agora: Sobre a cegueira – Pat Andrade

SOBRE A CEGUEIRA

você aí no seu carro do ano
não pode ver que aqui do lado de fora
o universo está na contramão

você aí na sua casa bonita
não pode ver que aqui do lado de fora
tem uma grande confusão

você aí que não sai do shopping
não pode ver que aqui do lado de fora
pro crime já não há solução

você aí que pensa que que tem poder
não pode ver que aqui do lado de fora,
se prepara uma revolução

PAT ANDRADE

Poesia de agora: Encontro – Patrícia Andrade

Encontro

quando te encontrar,
vou procurar estrelas em teus olhos,
buscar a poesia contida em ti;
a mesma poesia que vai além da folha de papel,

que transcende nos teus gestos, que são leves;
nas tuas palavras, que são doces,
nos teus passos indeléveis…
quando te encontrar
vou te mostrar um mundo novo
cheio de flores e estrelas

para que as admires com esse mesmo encanto
que manifestas diante das coisas belas…
quando te encontrar,
será por um instante apenas…

mas é exatamente nesse instante
que verás a infinidade de espantos
que cabe num único encontro…

Patrícia Andrade

Poema de agora: O Senhor do Tempo – Patrícia Andrade

O SENHOR DO TEMPO

por força do acaso
a vida segue
um curso inusitado
o senhor do tempo
é dominado pelo sono

perseguido por pesadelos
recorda o mundo de dor
que orbita ao seu redor

o passado se precipita
sobre o homem
resistir é inútil
a razão dá espaço
à fúria animal

o presente
é um furacão que se agita
nem sempre consegue
usar as armas que tem
a luta é desigual

o futuro
pode ser que não exista
mas aceita os riscos
e segue a pista
nada é normal

este homem ao acordar
se obriga a improvisar
pra viver a vida real

Patrícia Andrade

Poesia de agora: Confissão – Patrícia Andrade

CONFISSÃO

preciso confessar
meus pecados todinhos:
às vezes, como demais
guardo sempre uns centavos
cobiço o gato do vizinho
detesto gente falsa
quero ficar mais bonita
tenho tesão de manhã cedo
quero dormir mais um pouquinho
me condene, se for capaz
de não pecar nem um tiquinho

Patrícia Andrade

Poema de agora: Crianças Palestinas – Patrícia Andrade

Conflito em Gaza, fonte de stress para as crianças nos territórios ocupados – Foto: AFP or licensors

Crianças Palestinas

elas erguem
os braços frágeis
mas não querem colo

querem um lar
um país
uma pátria
um futuro
uma vida

querem o fim
da violência
da intolerância
das sirenes
das bombas
querem o direito
de ser criança

pedem pra carregar
nos seus braços
não a morte
não o medo
mas a sua bandeira
a sua infância

Patrícia Andrade

Apresentado pelo poeta paraense Renato Gusmão, hoje rola “Sarau Encharcado de Poesia” com a poetisa Patrícia Andrade

O Sarau Encharcado de Poesia, desta segunda-feira, 17 de maio, feito todos os saraus acontecidos durante 1 ano e pouco, junto de tantos poetas que ajudaram imensamente este evento receberá com honras a poeta Patrícia Andrade para nos alegrar com suas palavras.

Pat Andrade é uma poeta/artista plástica/produtora cultural amazônida. Paraense de nascimento, atualmente, vive em Macapá.

Poeta Patrícia Andrade – Foto: arquivo pessoal.

Há pelo menos 14 anos, divulga seus poemas em publicações que ela mesma produz. São mais de 30 livrinhos artesanais, dos quais cinco são virtuais – produzidos em tempos de pandemia. A autora é colaboradora do Site De Rocha!; tem poemas publicados na coletânea Jaçanã – Poética Sobre as Águas, na Revista LiteraLivre e na Agenda Cultural, além de várias coletâneas virtuais, organizadas durante a pandemia.

Membro do coletivo Urucum, Pat se considera uma militante da Literatura: quando pode visita escolas, universidades e participa de eventos literários e culturais, os mais diversos. A poesia é arma/refúgio/conforto.

Vai assim, semeando a palavra, colhendo brisa e plantando tempestades.

Poema de agora: Filosofia barata – Pat Andrade

Filosofia barata

organizar as ideias
em ordem alfabética
e arrumar na estante
para quando precisar

essa a prioridade
do homem que sonha
do indivíduo que escreve
que faz poesia

imaginar o que sente
o eletricista
adivinhar o que pensa
o carteiro
divagar sobre morte e vida

arriscar a sorte na loteria
pagar a conta de luz
(mesmo sem energia)
dez por cento para jesus

oferta canalha
promessa vazia

Pat Andrade

Poema de agora: LIÇÕES – Pat Andrade

LIÇÕES

ensina-me a ser
amor de novo
quero aprender
o que te satisfez

ensina-me a sorrir
mesmo na dor
preciso esquecer
o que o tempo fez

[e se houver tempo]

ensina-me a
voar também
preciso de algo
mais que o talvez

ensina-me a viver
nesse mundo
quero nascer
mais uma vez

Pat Andrade

Poema de agora: MUDEZ – Pat Andrade

MUDEZ

me faltam palavras
mesmo que o coração
fale aos berros
dentro do peito

minha boca se cala
ainda que meu corpo
grite e sinta o arrepio
em cada pelo

me falta a voz
ainda que o sentimento
se manifeste em mim
meio sem jeito

e sem conseguir
dizer o que quero
sigo assim muda
a te olhar pelo espelho

Pat Andrade

Poeta Pat Andrade gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga!

A poeta Patrícia Andrade.

É onze de maio e Patrícia Andrade, a querida “Pat”, gira a roda da vida. A brilhante poeta chega aos 50 anos, mas nem parece. Tanto fisicamente, quanto espiritualmente. A bela e talentosa artista é uma livre pensadora e, como poucas pessoas que conheço, deu uma guinada em sua vida. Para melhor, claro. Por ser seu dia, hoje rendo homenagens à essa mulher sensacional.

Conheci Patrícia Andrade há 22 anos, quando ela desembarcou aqui, no meio do mundo, vinda de Belém (PA), em 1999. Safa, descolada e sem estar ideologicamente presa a nada, Pat se tornou rapidamente “chegada” de todos nós, os malucos da cidade. Logo virou broda de intelectuais, militantes culturais e, é claro, poetas e escritores. A menina sempre se distinguiu por ser inteligente e despudoradamente franca. Aliás, poesia é uma arte que essa linda domina. Patrícia é senhora do ofício de poetizar.

Pat Andrade, há 20 anos, nos saraus de Macapá

Cheia de papos legais e dona de vasta cultura geral, Patinha é uma mulher cheia de poesia, histórias hilárias, outras nem tanto, e uma trajetória bacana no cenário cultural de Macapá. Além de poeta, trata-se de uma multi-artista, pois ela também se garante nas artes plásticas, escritora/cronista, discotequeira (Vinil-DJ) e produtora de vídeo e ativista cultural. Pat, inclusive, foi uma das fundadoras do movimento do vinil na Floriano e em outros locais desta cidade cortada pela Linha do Equador. Também é figura presente em saraus ou qualquer manifestação cultural e de defesa de direitos da sociedade.

Eu vi o Artur gitinho e já é esse cara aí ao lado da mãe. O moleque é talentoso também. Gente querida!

O tempo passou, eu virei um velho gordo e a poupança Bamerindus levou o farelo. A Pat namorou, casou, se tornou mãe do querido Artur, trampou e pirou. Tudo com intensidade, paixão, sás coisas legais que gente como ela faz e acho muito firme, pois sou assim também.

O mais legal é que, nos últimos três anos, Patrícia e eu nos reaproximamos. Ela virou a poeta que mais contribui com este site e minha parceira de trampo. Patrícia colabora para este site, onde assina a sessão “Caleidoscópio de Pat Andrade”. Além de broda para papos bacanas e desabafos, que todos precisamos.

Pat e o marido, Marcelo Abreu.

Outra coisa porreta sobre Andrade é que ela se reinventou, começou a cuidar da saúde física e mental. Essa virada de chave é algo lindo de constatar. Hoje, casada com o também poeta Marcelo Abreu, a amiga vive feliz, com seu esposo e filho. Como diria Raulzito, ela não quer mais andar na contramão. Sempre vejo a querida postar em suas redes sociais fotos de atividades físicas, entre outras coisas bacanas e penso: será que um dia eu conseguirei? Enfim, se ela tá feliz, eu tô feliz.

Calistenia matutina de Pat e seus amores.

Pat também cursa Letras na Universidade Estadual do Amapá (Ueap), mas poderia dar aula, de tanta sintonia que tem com as palavras e com a língua portuguesa. A obra poética de Patrícia Andrade é resultante de uma mistura de vivências, amores, dores, tudo em tom de confissão.

A poesia de Pat Andrade é um passeio emocional entre as esquinas da arte e da vida, quando sentam para conversar. Há o ritmo do Equador e uma ternura própria, em suas linhas. Além de tudo dito e escrito, a Patrícia é uma pessoa que sei que posso contar. Amigos assim são bem raros. Ela é Phoda! E eu a amo como uma irmã.

Eu e Pat Andrade. Brodagem!

Patrícia, minha querida, que teu novo ciclo seja ainda mais produtivo, saudável, rentável e que tudo que couber no seu conceito de felicidade se realize. E que tua vida seja longa, por pelo menos mais uns 50 maios. Apesar destes tempos cinzas de pandemia que vivemos, hoje é um dia feliz pelo teu ano novo particular e tu mereces todo o amor que houver nessa vida. Parabéns pelo teu dia e feliz aniversário.

Elton Tavares

Poema de agora: Restauração – Patrícia Andrade

Restauração

nas noites insones
o olho arde e grita
a dor antiga

[violência instituída]

não há polícia que a contenha
não há Estado que a evite

na memória do corpo
a marca profunda
o abuso inconcebível

[irremediável ferida]

não há xarope que cure
não há pomada que cicatrize

mas é carne dura; resiste
constrói pontes interiores
pra vencer os abismos
rasgados pelo tempo

[vai sorrindo seu riso triste]

recolhe estilhaços
procura conserto
pro coração aos pedaços

[acredita que é possível
colar os cacos]

esbarra no limite da vida
chega ao limiar da morte
mas ainda persiste

sabe que nada sai de graça
e se refaz bem devagar

usa amor como argamassa

Patrícia Andrade