Bora pra A Banda! (o maior bloco de sujos do Norte sai hoje pelas ruas de Macapá)

Os macapaenses esperam o ano todo para sair às ruas na terça-feira gorda. Sim, é hoje! Chegou o dia do ápice do Carnaval amapaense, A Banda! E este ano será sua 53ª edição. Alguns verão a Banda passar e outros, como eu, sairão pela cidade cantando e pulando no maior bloco de sujos do Norte do Brasil.

Todo ano é a mesma coisa. Acordo, banho, como algo leve e vou pra casa da dona Sabá, mãe do amigo Anderson. Lá rola caldo, cerveja e começa a “fuleiragem”. De lá, vamos para a concentração da Banda, na Praça Veiga Cabral, de onde o maior bloco de sujos do Norte do Brasil sai às 14h.

A Banda foi fundada no carnaval de 1965, pelos foliões Nonato Leal, professor Savino, Jarbas Gato, tenente Pessoa, Amour Jaci Alencar e José Maria Frota. E lá se vão 53 anos!

Na Banda a gente ri dos amigos, ri da gente, ri de estranhos. Nós bebemos debaixo de sol e chuva. Subimos e descemos ladeiras, rodamos as vias de Macapá num incrível espetáculo colorido e democrático.

Hoje o espírito folião de Macapá aflora e A Banda passa sem papas na língua. O improviso e a desorganização são marcas registradas dos foliões. Alguns satirizam a política local e nacional com faixas e cartazes, sempre em tom de ironia, deboche e o bom humor multifacetado do carnaval. Milhares de caras vestidos de mulheres e a criatividade sacana dos brincantes não têm limites. Tem de tudo, até manifestações artísticas.

Saio na Banda há 23 anos. Sempre na paz e acompanhado de amigos. Que hoje seja assim de novo. Sairemos da Praça Veiga Cabral, no centro de Macapá, pegaremos a Rua Cândido Mendes, depois na Avenida Henrique Galúcio e seguiremos pela na Rua Tiradentes.

Aí chegaremos já possuídos, na Avenida Feliciano Coelho e dobraremos na Rua Leopoldo Machado, no bairro do Trem. Daí a multidão de foliões segue até a Avenida Ernestino Borges, desceremos a Rua São José e finalmente chegaremos na Praça do Barão, onde o coro continuará comendo.

A Banda faz parte da nossa Cultura. É uma tradição do Carnaval amapaense, uma manifestação popular incrível, um verdadeiro show de irreverência e humor. Eu me ‘esbaldo’ na festa, pois a marcha é alegre. E bote alegre nisso! Estarei de Rei Momo entre os milhares de foliões. Desejo uma ótima brincadeira a todos.

Elton Tavares

Sobre os Reis Momos do Amapá e a história dos Reis Momos

Amo Carnaval e seus personagens. No caso da quadra carnavalesca amapaense, dois deles são Reis Momos e marcaram a história. Essas duas personalidades importantes do carnaval tucuju, são Raimundo dos Santos Souza, o Sacaca, primeiro monarca da alegria foliã por aqui e o segundo é Raimundo Tavares, o “Sucuriju” que subiu ao trono da alegria quando o primeiro virou saudade.

Sacaca, além do primeiro Rei Momo amapaense, participou da fundação da primeira escola de samba, a Boêmios do Laguinho e, em 1994, foi homenageado pela escola de samba Piratas da Batucada, com o enredo “Festa para um rei negro”. A agremiação foi a campeã neste ano.

Raimundo dos Santos Souza também foi mestre em medicina natural, o “curandeiro”. Tinha duas paixões além de sua família: as plantas e o Carnaval. Ficou famoso por suas garrafadas, remédios caseiros feitos de ervas, e por ser um folião apaixonado, sobretudo pelo bloco “A Banda”. Ele morreu aos 73 anos, em 1999 e deixou um legado inestimável para o Carnaval local, mas vive na memória e coração das pessoas que curou e com quem dividiu os carnavais memoráveis de sua época.

Sucuriju foi eleito, em 2003, o Rei Momo do Amapá, desde então nunca mais deixou o trono. De acordo com informações da jornalista Alcinéa Cavalcante, ele é amante do samba desde os 9 anos, quando participou de um desfile pela primeira vez. Caiu no samba ainda gitinho, foi ritmista de bateria de escola de samba, passista cheio de breque e ginga e um dos melhores mestres-sala do Estado.

Eu e Raimundo Tavares, o “Sucuriju”, nosso Rei Momo., no bloco A Banda – Carnaval 2017

Amo brincar Carnaval e me visto de Rei Momo. Aliás, sou o Rei do bloco “Me imprensa que eu te jogo na rede”. No meu caso, é um auto-barato por conta do porte físico bucho-quebrado, mas respeito e muito os Reis Momos de verdade e o papel deles na história da folia nacional.

Sobre o surgimento do Rei Momo

Na mitologia greco-romana, o Momos era o Filho do Sono e da Noite. Ele ficava o tempo todo prestando atenção nas atitudes dos deuses e dos homens e fazendo graça de tudo. Era considerado o deus da Graciosidade, pois passava o tempo todo rindo e fazendo piadas dos outros. Era representado com uma máscara numa mão e uma figura ridícula na outra, para dar a entender que ele tirava a máscara dos vícios dos homens.

Com o passar do tempo, em Portugal, virou um personagem que tinha o trabalho de divertir os amos e senhores, nos castelos e nas casas dos nobres.

Ele apareceu pela primeira vez como personagem de um carnaval na Colômbia, em 1888. Uma figura alegre, brincalhona e governante da bagunça da festa.

No Brasil, surgiu em 1933, no Rio de Janeiro. Jornalistas que trabalhavam no periódico “A Noite”, inventaram um boneco de papelão e batizaram ele de O Momo.

No ano seguinte, decidiram transportar o personagem do papel para a vida real. O cronista do jornal Moraes Cardoso aceitou o cargo e eles saíram desfilando pelas ruas do Rio de Janeiro, saudando o rei! Ele foi o rei Momo pelos 15 anos seguintes, até morrer.

A tradição se manteve e, até hoje, a figura do Rei Momo é adotada nos carnavais cariocas e de outros estados. É a autoridade maior do evento e recebe até as chaves da cidade para governar durante o período de festas.

Elton Tavares, com informações do blog do Simão e Alcinéa Cavalcante.
Fotos: blog Porta-Retrato; Canto da Amazônia e da Alcinéa Cavalcante.

Causo do carnaval – Sucuriju? Não tem (Por @alcinea)

Eu, Rei Momo dos bloco “Nada me Imprensa”, dos jornalistas do Amapá e o Rei Momo do Carnaval Amapaense, Sucuriju – Foto: Patrick Bitencourt

O pauteiro de uma emissora de televisão chamou o cinegrafista e disse:

– Vai lá no Sambódromo e filma o Sucuriju. Tô precisando dessa imagem pra jogar um flash daqui a pouco no ar.

O cinegrafista pegou a câmera e se mandou pro Sambódromo. Uma hora depois ele voltou avisando que a pauta furou.

– Mas como a pauta furou? Perguntou irritado o pauteiro.

Candidamente o cinegrafista respondeu:

– Procurei em todos os cantos do Sambódromo e não vi nenhuma cobra. Lá

só tinha gente. Muita gente sambando e cantando.Era a maior animação, até o Rei Momo tava lá. Mas cobra não tinha nenhuma. Nem sucuriju, nem jiboia, nem nada.

P.S – Sucuriju é o Rei Momo de Macapá.

Alcinéa Cavalcante

Hoje rola Futebol à Fantasia na Praça Nossa Senhora da Conceição – Você torce para qual time, Dondocas ou Bonecas?


Hoje (12), a partir das 15h, vai rolar o tradicional e irreverente futebol à Fantasia na Praça Nossa Senhora da Conceição, zona Sul de Macapá. As partidas entre Bonecas contra Dondocas e Solteiros versus Casados é uma das atrações do Carnaval amapaense.

A brincadeira completa 34 anos em 2018 e é realizada pela Associação de Solteiros e Casados do Bairro do Trem. Fintas de bom humor, belas jogadas de palhaçada e uma goleada de risos estão garantidas para festa. Bora lá!

Elton Tavares

Bloco do Eu Sozinho – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sigo eu, sozinho, seguindo a mim mesmo, neste bloco de amigos e inimigos invisíveis, alguns inexistentes, sobras de outros carnavais. Pálidas lembranças de confetes e serpentinas. Fantasmas de pierrôs e arlequins. Saudade de colombinas.

Sigo cego, a esmo, sempre o mesmo, sob a chuva. Não a chuva de papel picado. A chuva, essa que vem devagarinho e fica por muito tempo, a desmanchar a maquiagem, a se misturar às lágrimas que caem da máscara, as lágrimas formando outra chuva.

Meu samba atravessa a avenida e eu atravesso o samba. Sou desclassificado, é lógico. A corte marcial do Rei Momo é implacável. Se ano que vem ainda existir carnaval, se houver ano que vem, devo desfilar no segundo grupo. Mas, como sei que não posso deixar o samba morrer, que não posso deixar o samba acabar, o jeito é me acabar no samba.

Sigo esse bloco, sou esse bloco, despido de fantasias, em choque com a realidade, e espero me recuperar da ressaca nas cinzas de outro carnaval. Quarta-feira há de chegar, a me cobrar responsabilidades de quem sobreviveu ao folguedo, e eu estarei preparado (estarei preparado?) para ir ao seu encontro.

CTMac faz blitz educativa para um carnaval seguro

Os arte-educadores da Companhia de Trânsito e Transporte de Macapá (CTMac) se destacaram no sábado, 10, no Centro comercial da cidade. Isto porque a equipe intensificou as blitzen educativas no período carnavalesco. Com o tema Carnaval é só festança! Então volte com segurança!, a ação teve a finalidade de prevenir e reduzir índices de acidentes de trânsito, pois álcool e direção resultam, consequentemente, em mortes.

A mobilização contou com a abordagem de motoristas e pedestres na Rua Cândido Mendes. Foi uma orientação, com distribuição de panfletos de conscientização, contado, claro, com a irreverência lúdica dos arte-educadores da Companhia. Segundo o diretor-presidente da CTMac, André Lima, a intenção é mudar o comportamento das pessoas. “É importante conscientizarmos que álcool e direção não combinam, em especial nesse período prolongado de festas carnavalescas”.

Para o coordenador do Departamento de Educação no Trânsito, Thomé Azevedo, essa ação tem um caráter pedagógico. “No carnaval é importante a alegria, a segurança e a educação. Nossa equipe está sempre atenta a essas datas festivas, em especial ao carnaval. Escolhemos o centro comercial por haver uma grande demanda de pessoas que estão comprando acessórios carnavalescos”.

Alessandra Lameira
Assessora de comunicação/CTMac
Contato: 98119-7655

É Carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração! (crônica sobre a maior festa cultural brasileira)

Começou mais um Carnaval, a maior festa popular do Brasil. Amo Carnaval, particularmente o de rua, sinto saudade do desfile das escolas de samba, A Banda e o bloco do Formigueiro. Carnaval é paixão, só entende quem sente. Para aqueles quem acham tudo uma grande besteira, azar o de vocês, pois não sabem curtir a maior festa cultural brasileira.

Macapá já teve bons carnavais de clube. Na época, os foliões compravam temporadas carnavalescas, bons tempos. Cresci no meio de gente alegre: meus pais, tios e os amigos deles, todos “pulavam” nos bailes carnavalescos mais disputados da cidade. Eram realizados no Trem Desportivo Clube ou no extinto Círculo Militar (esse mais elitizado). Ainda adolescente participei de muitas dessas festas memoráveis.

Pena que pelo terceiro ano consecutivo, não desfilarei pela minha amada Piratas da Batucada, como fiz desde 1992. O lance é curtir o Carnaval, a emoção e a alegria que ele proporciona. Afinal, “todo mundo bebe, nas ninguém dorme no ponto”. Mentira, muitos passam sim, mas a gente gosta assim mesmo.

Não tenho ziriguidum, não toco surdo de repique, tamborim ou bumbo, tudo pra não atravessar o samba. Também não sou pierrô e nem palhaço, mas sim Rei Momo, mas ainda dá pra andar todo o percurso de A Banda (risos). Sim, também estarei naquela multidão de máscaras coloridas e fantasias hilárias. Vamos botar pra quebrar nas ruas de Macapá. Como diz a velha marchinha do remador: “Se a canoa não virar, olê, olê, olá, eu chego lá”.

Enfim, o Carnaval é festa que contempla as tradições e a história afro-cultural brasileira e nos dá a falsa sensação de liberdade, música, suor e alegria. Como diz o samba: “É Carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no meu coração”. Tenham todos um ótimo Carnaval!

Elton Tavares

Encerramento do CARNAVAL DA TRINA!!

Nesse domingo 11/02 a partir das 18h.

Você vai encontrar 12 estilos de cervejas artesanais produzidas especialmente para o folião Trina!!

E a partir das 20h apresentação das atrações culturais.

E tem mais!!! Hoje vai ter sorteio de 3 cortesias para o bloco do ABEL e brindes da TRINA.

CONTO DE CARNAVAL – Fernando Canto


CONTO DE CARNAVAL

Por Fernando Canto

Naquela noite de orgia no carnaval de setembro, o garanhão Thor se encheu de coragem e comeu o assassino Fred Krugger atrás das cortinas do clube. Deu-lhe uma martelada na cabeça e acabou com a máscara do otário.

Eduardo Luís, o Mãos de Tesoura, que acabara de terminar seu relacionamento com o Homem de Ferro, olhava, deprimido, aquela cena enquanto a Mulher Maravilha dançava com o Homem de Areia a marchinha “A Jardineira” mais bêbeda que um trem descarrilando.

UM DIA DE ELLEN PAULA – (relato verídico de Carnaval – Por Fernando Canto)

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Ellen Paula

 

Por Fernando Canto

Claro que não é a mesma coisa. Mas já me senti a própria miss da Expofeira deste ano que viu seu direito de ganhar o concurso ser usurpado (propositadamente ou não). Tudo por causa de um suposto erro de contagem do júri.

No meu caso a situação aconteceu nos fins de 1985, quando fui convidado para participar de um festival de samba-enredo da Associação Recreativa Piratas da Batucada, na sede do Trem Desportivo Clube. O tema era “O sonho de um rei”, e o regulamento dava margem para mudar o título, desde que o samba se encaixasse no que os carnavalescos da escola queriam.

Como na época eu pertencia à ala de compositores dos Piratas Estilizados, que era do seguimages (6)ndo grupo, resolvi participar. Então convidei o Neck para defender a música “O Rei da Brincadeira”, para a qual fiz os arranjos e acompanhei no cavaquinho. Aconteceu, porém, que o Jeconias Alves de Araújo também estava inscrito no festival, mas não havia encontrado quem interpretasse seu samba. Pediu-me para cuidar disso. Cuidei. Ensaiamos os dois sambas na sede dos escoteiros do Laguinho com uma turma de batuqueiros dos Piratinhas.

No dia anunciado para realizar a escolha do melhor samba – um, sábado – havia seis inscritos. O prim
eiro a ser cantado, por sorteio, foi o do Jeconias, denominado “Sonho de um Rei”, cantado pelo Neck e acompanhado por mim no cavaco. Os intérpretes do samba seguinte – “O sonho de um pirata”, de Leonardo Trindade – não apareceram. O

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Fernando Canto e o saudoso Jeconias Araújo

próximo foi o meu samba, que o Neck interpretou magnífica e profissionalmente, sendo bastante aplaudido. A quanta composição, intitulada “O sonho de um rei no carnaval”, de Alcy Araújo, também não concorreu. Mas as duas seguintes, “Sonho de um rei fantasiado de pirata”, de Venilton Leal, e “Sonho em forma de samba”, de Zoth e Antoney Lima eram muito boas e também foram bastante aplaudidas pela galera do Piratão.

Após uma longa e nervosa espera – um sofrimento para quem participa de festivais – finalmente o presidente do júri anunciou o resultado, favorável ao Jeconias Araújo, que por sinal era compositor dos Piratas da Batucada desde a sua fundação. Jeconias recebeu o cheque no valor de dois mil cruzados novos, contente da vida, enquanto eu e o nosso intérprete nos perguntávamos onde foi que erramos. Mais tarde, tomando uma gelada ndownload (5)o badalado bar Balaio, na Praça Nossa Senhora da Conceição, o Jeconias, que depois viria se tornar um grande amigo meu, me esnobou balançando o cheque na minha frente. E nem agradeceu o favor.

Como essas coisas aconteciam nos festivais não liguei muito. Na segunda-feira o Manoel Torres, que fora secretário do júri do festival e pertencia à diretoria da escola, chamou-me na reprografia da Secretaria de Planejamento do Governo do Território, repartição que trabalhávamos. Ele queria me mostrar que o festival tinha sido feito com lisura e honestidade. Para tanto me deu uma planilha com os resultados.

Na ocasião eu estava acompanhado do Rui Lima, que como eu também era técnico da SEPLAN. De posse da planilha o Rui somou rapidamente os resultados com olhos de economista e detectou que o mesmo estava alterado. Em vez de 59 pontos o samba de Jeconias aparecia com 69: 10 pontos a mais. O meu samba havia alcançado 65,5 pontos, portanto eu ganhara o festival.

Não devolvi a cópia da planilha. Guardo-a até hoje. Fui atrás dos meus direitos e os consegui: o samba foi gravado (pelo Neck) e cantado na Avenida Fab no Carnaval de 1966.

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Prova do erro: planilha da pontuação

O ruim disso foi que o Jeconias não recebeu o dinheiro do prêmio e por isso nunca mais fez samba para a sua escola. Por outro lado, no ano seguinte fui convidado pelo Monteiro para fazer o samba que homenagearia o Biroba, espécie de ícone do bairro do Trem. Então o samba ajudou o Piratão a ser campeão pela primeira vez, na FAB. Coisas do carnaval.

Compreendi a intenção do Manoel Torres, que não foi ingênuo, mas honesto; a de Jeconias, um vencedor que não levou o prêmio; e agora a da jovem miss Ellen Paula, que como eu fez seu trabalho, mas que por causa de um erro (intencional ou não) se viu impedida de comemorar a vitória. Mesmo assim eu acredito que sempre há um tempo para corrigir injustiças.

*Publicado no jornal “A Gazeta” de domingo, 13.12.2009.

Obs: republicado por conta da polêmica e poradal de um certo concurso de beleza do Carnaval. Daí a contextualização.

Baile de máscaras reúne programação alternativa de carnaval em Macapá

Por Carlos Alberto Jr

Sempre como opção alternativa no carnaval, o Espaço Caos – Arte e Cultura promoverá o tradicional baile de máscaras hoje (10), na Zona Sul de Macapá. Na quinta edição, o baile “Quanto Riso, oh! Quanta Alegria” terá shows de artistas locais com sucessos que vão das tradicionais marchinhas de carnaval ao pop.

O baile também terá roda de conversa sobre o tema “News e manipulação de informação” e um concurso de fantasias, valendo como premiação uma vaga em um curso de fotografia. A programação tem ainda batalha de confetes, apresentações circenses e pinturas em neon.

A banda Pinducos – que é inspirada no “rei do carimbó”, Pinduca; o cantor pop Jhimmy Feiches e a banda de rock psicodélico Stereovitrola serão as atrações musicais do baile.

Também está confirmada apresentação do DJ Fúria Negra, com uma playlist voltada para black music brasileira e americana. Os ingressos da festa serão vendidos na portaria ao custo de R$ 8.

Baile terá batalha de confetes, pinturas de neon, atrações circenses e musicais em Macapá (Foto: Carlos Alberto Jr/G1)

Serviço:

5ª edição do baile “Quanto Riso, oh! Quanta Alegria”
Data: 10 de fevereiro (sábado)
Local: Espaço Caos – Arte e Cultura (Rua Leopoldo Machado, nº 4004, bairro Beirol)
Hora: 19h
Entrada: R$ 8
Classificação indicativa: 18 anos

Fonte: G1 Amapá

Calças de Linho Flutuantes e os Nomes dos Blocos- Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Na constelação de brilho intermitente do carnaval você pode se tornar uma estrela. Basta querer. Quem não se identificar com o samba tem a opção de sair no meio de um bloco carnavalesco, onde os brincantes se esbaldam no frevo rasgado ou ao som das tradicionais marchinhas que trazem temas diversos na competição anual entre eles.

Dada a sugestão está feito o convite. Um pouco tardio, creio, mas feito com o carinho de quem quer ver o carnaval macapaense brilhar mais do que do que brilhou no passado. “Um passado de glórias”, como diz um antigo samba dos Boêmios do Laguinho. Um passado feito de desfiles e batalhas de confetes que encantavam as crianças nos domingos de fevereiro em diversos pontos da cidade e faziam a alegria da juventude.

É inesquecível para mim a figura da porta-bandeira Telma e do mestre-sala Sucuriju rodopiando no asfalto da avenida FAB sob o calor dos holofotes e do aplauso do povo laguinhense. O povo aplaudia e gritava quando o grande passista, o Mestre Falconeri dançava, balançando as largas calças de linho que pareciam fazê-lo flutuar sobre o chão.

Mas o povo delirava mesmo era cantando o samba aprendido às pressas nos últimos dias que antecediam ao desfile, uma prática usual de todas as escolas. Era a partir do samba que se faziam os enredos. Então ele era guardado a sete chaves até próximo do dia do desfile oficial para que as escolas concorrentes não o plagiassem e nem ao enredo. Francisco Lino, o Menestrel, que o diga.

As escolas da déuntitledcada de 60 e parte da de 70 eram parecidas com os blocos de hoje que almejam serem escolas de samba: traziam apenas um carro alegórico e um pequeno contingente de brincantes. A diferença é que a maioria dos instrumentos musicais era fabricada por aqui mesmo. Os próprios brincantes faziam seus querequexés e agogôs, frigideiras e tamborins. Minutos antes de entrarem na passarela acendiam fogueiras para esticar o couro dos tambores a fim de evitar que murchassem devido ao tempo ou a uma chuva inesperada. De acordo com o Pedro Ramos, o maior repiquinista dos Estilizados, o instrumentista tinha que levar uma folha de jornal no bolso para esquentar os tamborins feitos de couro de cobra pelo seu Joaquim Suçuarana. Sambistas e passistas mirins, como o Neck e o Kipilino, se revelavam novos talentos e se tornaram o orgulho de sua escola.

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Antigo Carnaval na Avenida Fab. A multidão amanhecia e ia atrás da última escola a desfilar

Enquanto Luís do Apito (pai do Bababá, atual mestre de Bateria dos Boêmios) organizava a batucada, R. Peixe se preparava para trazer a sua recém-criada Embaixada do Samba, uma dissidência da Piratas da Batucada. Esta, por sua vez, trazia em suas hostes os incansáveis e pouco reconhecidos compositores Jeconias Araújo e Juriel Monteiro. Lá atrás Pelé e Fifita, Neusona e Escurinho aguardavam sua vez de desfilar ao som dos sambas de Izar Leão ou de Nonato Leal e Alcy Araújo, apaixonados que eram pela verde-rosOLYMPUS DIGITAL CAMERAa macapaense.

Nos anos 80 surgiram as escolas de samba de 2º grupo, como a Piratas Estilizados (que foi bloco por muitos anos) a Unidos da Coaracy Nunes, a Quilombo dos Palmares, Emissários da Cegonha e a Solidariedade. Daí, então, o carnaval amapaense teve outra formatação até o advento do sambódromo, que foi o território do Piratão por um longo reinado. De 1997 para cá, o brilho do carnaval foi mais intenso.kubalanca_2005_thumb[2]

Mas uma coisa marcante, hoje, é o desfile dos blocos. Eles estão em todos os bairros e todo ano se multiplicam levando suas temáticas e irreverências pelas ruas da cidade até se encontrarem no desfile da terça-feira na Banda. Creio que são a cara do nosso carnaval, ainda que queiram embotar-lhe o brilho com falso moralismo, em função dos nomes de dupla conotação que carregam. Carnaval em São Paulo no início do século XXOra, o carnaval amapaense é muito brasileiro. É irreverente e feliz. Traz como características a eliminação da repressão e da censura e a liberdade de atitudes críticas e eróticas. Realça o sorriso das crianças e não descarta nem esconde a sensualidade das mulheres tão sensualmente amapaenses, tão lindas e alegres, que optaram por brilhar no carnaval.

Carnaval, o Espelho Invertido – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

O brasileiro faz festa para tudo, sempre arranja um motivo para comemorar. Mas é no carnaval que ele festeja a si próprio, pois quando isso acontece emerge claramente a velha ideia de que a festa representa uma memória e uma comunicação expressa por mensagem, no dizer do antropólogo Carlos Brandão. E se nos festejamos estamos cerimonialmente separando aquilo que deve ser esquecido (o silêncio não-festejado do cotidiano) e aquilo que deve ser resgatado. Quando nos festejamos somos convocados à evidência, para sermos lembrados por algo ou alguém, o que significa darmos sentido à vida, através de ritual na brevidade de um momento especial em que somos anunciados com ênfase. Aí nos tornamos símbolos, porque a sociedade festeja alguém que transitou de uma posição a outra ou migrou de trabalho ou de seu espaço de vida para outro.

Quando alguém, independentemente da mídia, tem seus quinze minutos de fama, pode estar solenizando uma passagem ou comemorando sua própria memória. A festa quer ser a memória viva dos seres humanos. A cada ano eles renovam essa catarse ao brincarem com os sentidos e os sentimentos, e então inventam situações onde a cultura nacional evidencia uma permanente vocação de investir no exagero, na critica e até na caricatura. Ali a oculta e difícil realidade surge epifanicamente revelando o que os indivíduos querem, fantasiados ou não, sóbrios ou loucos, juntos ou conflitantes, mas festejando o que são com suas angústias e significados.

No carnaval os atores sociais saem da rotina e forçam ao ritual da transgressão, saindo de si mesmos no breve ofício de inverter o que são. Alguns estudiosos como Da Matta e o próprio Brandão chamam isso de espelho invertido do que é socialmente esperado: pobres se vestem de príncipes, os nobres de índios, os homens de mulheres, as mulheres viram fadas e os bandidos querem ser heróis. Condutas se ultrapassam e se comemoram no ritual de si mesmo no carnaval.

Mas não é o objetivo deste artigo fazer uma análise mais acurada do carnaval. Ele, o carnaval, vai muito além do seu significado sociológico. E como cultura, qualquer mecanismo inerente a ele traz uma dimensão que nos permite o mais profundo pensar ou o maior desprezo, ou mesmo valorizar a velha ”preguiça” ancestral indígena que dá depois da farra.

Todos sabem que o carnaval, enquanto evento tem vários conceitos e facetas. O significado de sua origem se perde nas trevas do tempo. Escritores autorizados dizem que ele surgiu nas orgias pagânicas do Egito e da Grécia, ou nas bacanais de Roma, realizadas em dezembro. Ele seria, então, apenas a reprodução em sentido mais moderado das festas lupercais, saturnais e bacanais que a história registra com abundância de informações. Não parece haver dúvidas, segundo Jorge de Lima, que o carnaval, assim como o teatro, nasceu da religião. Do italiano carne vale, é o tempo em que se tira o uso da carne, pois o carnaval é propriamente a noite antes da quarta-feira de Cinzas.

Elton Tavares, Emanoel Reis e Fernando Canto – Bar do Louro – Carnaval 2016

Para alguns é apenas uma caricatura que se faz da realidade e das pessoas, mostrando seus defeitos de forma burlesca, com imitação cômica. A meu ver, entre tantas hipóteses do que pode ser o carnaval, fico com esta que é completamente inusitada. Certa vez ao tocar um antigo samba-enredo de uma escola do Rio, num banquinho em frente à casa de meus pais, no Laguinho, iniciei a música no cavaquinho e cantarolei: “O carnaval é a maior…” Quando fui bruscamente interrompido pelo vizinho e amigo Nonato Bufu, que completou: “…caligrafia”, no lugar de “caricatura”. Rimos na hora, mas hoje eu entendo que também nós somos responsáveis em escrever a mão a história do nosso carnaval, inclusive com as alegrias e dores que porventura se fizeram presentes em nossas vidas.

Texto publicado originalmente no Jornal do Dia, em 2006. Está no meu livro “Adoradores do Sol”.

Alegria é lei – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Noite de Carnaval, uma das Mil e Uma Noites de Carnaval, e eu diante da televisão. Em retiro espiritual? Nem tanto. Estava olhando as bundas rebolativas maravilhosas, reais e artificiais, que desfilavam nos sambódromos e passarelas deste carnavalesco Brasil.

Meu programa de folião se resumia a isso. Mas, depois que a exuberância bundística cansasse meu tarado, porém inofensivo, olhar, eu iria me entregar ao resto do programa: um bom livro e uma xícara de chá, embaixo do meu solitário edredom. O Rei Momo dominava o resto do Brasil e só eu me encontrava enclausurado nesta ilha que é o meu quarto. Que maravilha!

Mas ei que a campainha tocou. Quem estaria a estas horas longe da esbórnia cívica nacional? Abri a porta e me deparei com um pierrô, uma colombina, um arlequim, um pirata do Caribe, um sheik e cinco Fridas Khalo, que este ano estiveram em alta, disparadas na preferência de muitas pessoas. E tinha também um delegado de polícia. O delegado era delegado mesmo, não uma fantasia. E foi ele quem falou pelo grupo:

– Boa noite, cavalheiro! Viemos informar que o senhor está infringindo vários artigos do Código Civil. Onde já se viu uma coisa dessas?

– Mas o que foi que eu fiz?

– A questão não é o que o senhor fez e, sim, o que o senhor não fez!

– E o que foi que eu não fiz?

– O senhor, em pleno período de Carnaval, neste país, que é, nada mais nada menos, que o País do Carnaval, está recolhido aos seus aposentos. Os seus vizinhos, aqui representados por estes cidadãos, que prezam as tradições do lugar em que vivem, exigem que o senhor troque esse pijama por uma fantasia qualquer, o seu chá por uma bebida alcoólica e o seu livro por um adereço de mão. E venha para a rua pular, cantar, festejar a alegria e a liberdade de um país que decreta feriado nacional, universal e intergalático para que seus filhos possam se jogar, sem temor, nos braços da felicidade.

O grupo de foliões aplaudiu o delegado, que estufou o peito em resposta, muito satisfeito de seu discurso. Eu protestei:

– Já que o senhor falou em liberdade, será que uma pessoa não é livre para escolher se quer participar das festas? Assim como as pessoas que aqui estão têm o direito de dançar, eu tenho o direito de não dançar, de ficar no meu canto sossegado e….

O delegado, que procurava algo para me incriminar, me interrompeu:

– Aí é que está, cidadão! O senhor está sossegado no seu canto. Os seus vizinhos afirmam que o seu silêncio está atrapalhando o barulho que eles estão fazendo com tanta dedicação!

Aí foi que eu me confundi mesmo! Já sem força, nem raciocínio, para protestar contra aquele absurdo, me limitei a perguntar, já procurando minha carteira para uma providencial propina:

– E o que devo fazer para reparar esse dano?

– O senhor escolhe: pagar uma multa altíssima, ser recolhido ao xadrez ou cair na folia com seus semelhantes.

Escolhi a última opção. Vocês viram um folião todo desajeitado por aí? Era eu.