A Máquina x Eu (conto de Ronaldo Rodrigues)


Estamos num ringue de boxe, segundos antes do Combate do Século, como dizem os jornais.

Fora do ringue, ocupando todas as cadeiras do estádio, a turba enlouquecida grita o nome dEla. Aquela torcida gigantesca e apaixonada é toda para Ela.

Ela, a Máquina, é um potente computador de última geração, de avançada fabricação japonesa.

Tem história, curriculum vitae, tradição oriental, árvore genealógica, pedigree e mapa astral. E está desde tempos imemoriais programada para me destruir.

Eu não tenho absolutamente nada, além do medo hereditário que me aprisiona ao estado de animal humano diante da sentença de morte: o embate fatal, inevitável.

A Máquina irá me estraçalhar no primeiro round. E a turba enlouquecida, ávida por sangue, no último estágio de histeria coletiva, terminará o massacre. Pisará meu corpo desfalecido, chutará minha cabeça esfacelada.

Estou sufocando, suando, tentando a todo custo continuar respirando! Quero gritar! Me levantar! Correr! Me libertar! E não consigo! Não consigo! Não…

Nããããããããããããããããããããããããããooooooooooooooooooo!

Acordo atarantado e a Máquina, ao meu lado na cama, me acalma com todo tipo de carinho. Somos casados há oito anos e sempre sonho que um dia seremos adversários mortais.

Ronaldo Rodrigues

Se arrependimento matasse… (conto de Ronaldo Rodrigues)

– Você vem sempre aqui?
Cantada velha, mas ela esta a fim de ser apanhada em qualquer cantada.
– Sim. Eu sempre venho aqui na esperança de ouvir uma cantada original. Mas essa serve. Vamos para sua casa?
Ele recua. Não está acostumado com essa facilidade. A cantada é sempre a mesma, a única que ele tem, mas nunca funciona. É apenas um protocolo que cumpre nos bares. Ele precisa disso para comprovar sua ideia de que todo homem bêbado precisa de uma mulher para findar a noite.
– Vamos ou não para sua casa? Ou prefere um motel? É casado?
Ele recua mais ainda. Está quase arrependido de ter iniciado a conversa. Além do mais, nem está tão bêbado assim.
– Vai responder ou não? Se não está a fim, diga logo. Não quero voltar pra casa hoje sem ter transado.
Ele não recua mais porque já tinha recuado muito.
– Vamos conversar mais um pouco.
– Sei. Você é das antigas. Mas não quero intimidades. Pra que conversar se amanhã ninguém se lembrará de nada mesmo? Aliás, é melhor assim, sem criar laços.
Ele permanece mais um tempo calado, depois fala, sem muita convicção:
– Tudo bem. Vamos a um motel aqui perto.
– Ótimo.

Chegam ao motel e ela logo fica nua. Deita-se na cama, enquanto ele vai ao banheiro. Quando volta, ela dispara:
– Ainda está de roupa? Você é muito vagaroso.
– É que eu não estou acostumado com essa… essa… 
– Essa o quê?
– Sei lá! Você tem razão. Sou mesmo das antigas. Preciso de um estímulo maior.
– Vou dar o estímulo que você precisa.
Liga as palavras aos gestos. Levanta-se e o joga na cama. Arranca sua camisa, abre o cinto, puxa a calça, tira a cueca e se joga em cima dele, que fica imóvel e não consegue corresponder às carícias cada vez mais quentes. Ela busca todo o seu arsenal de jogos eróticos, até que, finalmente, consegue que o corpo dele tenha uma reação.

Depois de alguns minutos, os dois fumam, quando batem na porta. Ela permanece calma, enquanto ele pula da cama:
– Quem será?
– Só abrindo a porta pra saber.
– Você tem alguma coisa a ver com isso? Qual é o plano? Me assaltar?
Ela vai até a porta, falando entre um sorriso sem graça:
– Que onda…

Ela abre a porta e atende à funcionária do motel, que lhe entrega um bilhete e se retira.
– É só um bilhete. E é pra você.
– Um bilhete? Pra mim? Aqui? Quem poderia saber que estou aqui? E quem mandaria um bilhete pra mim?
– Só vai saber se ler o bilhete.
– Eu vou ler, mas essa história está muito esquisita. Aposto que você tem alguma coisa a ver com isso!
– Deixa de paranoia e lê logo a merda desse bilhete!
Ele abre o bilhete e o lê várias vezes, em silêncio. Ela perde a paciência e arranca o bilhete de sua mão.
– “Cuidado! Você está em perigo!”. O que significa isso?
– E eu sei? Você deve saber! Tenho certeza de que está metida nisso!
– Escuta aqui, cara! Você já não é bem grandinho pra inventar essas histórias? Pra quê que eu ia armar pra cima de ti? A gente se encontrou por acaso na merda daquele bar. Se arrependimento matasse…
Ela não termina a frase. A funcionária do motel abre a porta novamente e dispara três tiros. Ela, com um resto de vida, ainda têm tempo para perguntar:
– O… que é… isso?
Ele, agora abraçado à funcionária do motel, sorri entre baforadas de cigarro:
– O bilhete não é pra mim. É pra você. É o tal do arrependimento. Como você pode ver, arrependimento mata…

Ronaldo Rodrigues

Piquenique (conto de Ronaldo Rodrigues)


Chapeuzinho Lilás e Lobo Blau estavam nus, passeando pelo bosque. Suas roupas ficaram próximas ao lago, onde haviam passado a manhã inteira, em doces brincadeiras de mergulho, se procurando com ansiedade e se encontrando com sofreguidão.

Escolheram um lugar bastante aprazível, entre árvores cúmplices de vários amores.

Estenderam a toalha que Chapeuzinho Lilás trouxera da casa da avó. Estavam completamente despreocupados com a possibilidade de ser vistos. Tinham resolvido que naquele dia assumiriam seu amor proibido e ficariam juntos para sempre, de maneira que ninguém pudesse interferir.

Com movimentos lentos, ritualísticos, Chapeuzinho Lilás abriu a cesta e retirou uma garrafa de mel. E passou a lambuzar os corpos dos dois amantes, entre beijos e ridos de êxtase.

O Lobo Blau abriu outra garrafa e despejou em volta uma colônia de formigas vermelhas, que passaram a trafegar pela toalha, com finalidade estratégica.

Depois, Chapeuzinho Lilás e Lobo Blau se abraçaram, se beijaram, gemeram e gozaram em meio ao mel e às formigas que começavam a devorá-los.

Ronaldo Rodrigues

O DIA DA TRAVESSIA

Por Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração. 

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Microcontos de Ronaldo Rodrigues (parte I)


BUROCRACIA É O FIM

– Vim falar com Deus.
– Tem hora marcada?

MUDARAM AS ESTAÇÕES
No outono, no inverno,
minha prima Vera vira verão.

BLÁ-BLÁ-BLÁ
Quando faltar assunto, fique em silêncio.

CUIDADO – FRÁGIL
Quebrei meus olhos nas plumas do caminho.

BALA PERDIDA NÃO EXISTE
Todo coração tem endereço fixo.

MATOU A SAUDADE
Deu um tiro no peito.

GANGORRA
– Olha como eu toco no chão!
– Olha como eu toco no céu!

BASEADO BLUES
Fumaça colorida no ar de Barcelona.

FOLHA DE PAPEL A ME DESAFIAR
Te risco.
Me arrisco.

NO PAÍS DO CARNAVAL
Na quarta-feira, deparou com as cinzas do pierrô.

PÁSSARO NA GAIOLA
Só a ilusão conseguiu fugir.

ME DEIXASTE!
Me vingo te amando mais.

EM BRANCAS NUVENS
Lá vai a vida assim
sem saber se foi bom ou ruim.

MUDARAM AS ESTAÇÕES
A flor e a folha mudaram de ramo.

Ronaldo Rodrigues

O dia que o Bedran arrebentou com o professor perseguidor


Se tem uma coisa que adoro quando bebo cervejas no Bar da Euda é escutar as ‘estórias’ do meu amigo Fernando Bedran. Fernandinho é um sábio malandro, no bom sentido, claro. Por conta de seus causos, devaneios e pontos de vista paid’éguas, meu irmão, Emerson Tavares, diz que o Bedran “é melhor que tira-gosto de charque para tomar umas cervas”.

Durante uma de nossas conversas regadas a cerveja, Fernandinho, que é contra qualquer tipo de violência, contou que, certa vez, precisou usar a força. Segundo ele, em uma fase de nossas vidas é preciso “botar quente”.

Bedran contou-me que tinha vinte e poucos anos, na década de 80, e trabalhava no Ver-o-Peso, velho centro comercial de Belém (PA), e estudava à noite. Por causa de suas atribuições profissionais, faltava muito às aulas. 

Por conta disso, um professor começou a perseguir o nobre amigo, que explicou a situação ao educador, que se manteve irredutível. Para completar, o tal docente da escola que Bedran estudava o ridicularizava na frente dos colegas de classe. Comportamento que, segundo Fernandinho, era comum com todos os alunos, mas acentuado em relação ao Fernando.

“O cara era um “pentelho escrotal arruinado”, um verdadeiro “cri-cri”, desabafou Fernandinho”.

Passados alguns meses naquela patinhagem, Bedran se aporrinhou com a maquinagem pesônica do professor em relação a ele. E foi indagar o educador, que logo lhe disse: “quer saber, você não assistirá mais minhas aulas. Fora daqui!”.

Fernando disse que tentou e tentou, sem sucesso, resolver a situação. A reprovação era certa, já que ele não frequentava mais as aulas do nojento professor. Foi quando ele foi meditar no boteco, depois de um dia de trabalho, e decidiu cancelar sua matrícula.

Ao adentrar na escola, rumo à secretaria, Fernando Bedran passou pela sua turma e lá estava o dito cujo dando aula. Ao olhar para o professor, o debochado abriu um cínico sorriso, com um estranho ar de vitória e superioridade.

Foi quando Fernando Bedran explodiu e disse:

“Grande corno filho da puta e desconfio que és pederasta. Mete a cara que eu vou te dá-lhe é porrada! “

Aí ele fez a merda:

“Elton, dei uma mina de porrada no filho da puta. E tu pensas que a galera apartou? Porra nenhuma! O pessoal vibrou com a surra que dei no frescão”, vibrou Fernandinho (e eu também!).

Resultado: Bedran foi expulso da escola, mas com a alma lavada. É, como ele mesmo disse no início da ‘estória’: “é preciso “botar quente”. Boto fé!

Essa foi só uma das inúmeras aventuras do Fernandinho, figuraça que alegra nossas noites quentes, assim como as cervejas geladas.

Vida longa ao espirituoso Bedran, dono de um dos melhores papos que conheço, principalmente nos botecos da cidade.

Elton Tavares

SARNEY E O DIABO (conto)


Por conta da enfermidade sofrida pelo senador José Sarney, pela qual ele ainda se encontra hospitalizado, lembrei-me de um conto que li há tempos. Ao comentar com o meu amigo Aog Rocha sobre o texto, ele disse que tinha e me cedeu. Leiam: 

SARNEY E O DIABO

Em uma de suas viagens no jatinho do laranja dono de uma faculdade maranhense, Sarney com aquele pijama de seda, fazia a leitura diária de seu Maquiavel em um aposento privativo do avião. No mesmo vôo, vinha sua assessoria e os puxa, quando em dado instante, eis quem aparece, ele mesmo, o Diabo. Nesse instante, para não perder a viagem, o coisa ruim disse que o jato ia cair e todos iriam morrer e começou a fazer o avião balançar muito. Apavorados, os assessores foram até a cabine onde se encontrava o tranqüilo chefe e contaram o que estava acontecendo.

Zangado, o senador saiu do cômodo e foi ter com o capa preta e perguntou-lhe:

Sarney: você sabe quem sou eu?

O Diabo: sim, o Sarney.

Sarney: você sabe quem mandou prender o Zé Reinaldo usando seu prestigio junto à justiça e até à PF para satisfazer os caprichos de uma filha mimada?

O Diabo: Com certeza, foi Vossa Excelência.

Sarney: você sabe quem não deixou o Governador do Maranhão trabalhou para tirá-lo do cargo no tapetão?

O Diabo: O senhor é fogo, não há dúvida que é o senhor.

Sarney: você sabe quem mandava no Lula e manda na Dilma?

O Diabo: O senhor é claro.

Sarney: você sabe quem mandou durante quarenta anos no Maranhão, transformando-o no Estado mais pobre do Brasil e tem o menor IDH do País. E quem construiu também um mausoléu num lugar que era do Estado só pra satisfazer seu ego?

O Diabo: É demais, foi Vossa Excelência.

Sarney: sabe quem dá as cartas na Eletronorte, BNDES, Ministério das Minas e Energia, Correios, Petrobrás, tem grandes influências em quase todos os Ministérios e na Câmara dos Deputados.?

O Diabo: não tenho dúvidas que é Vossa Excelência.

Sarney: você sabe quem é sócio de um Banco em Miami, foi sócio do ex Banco Santos, é sócio de uma indústria de automóveis na Índia, sócio de um grande hospital, de um shopping e de dois prédios na avenida mais movimentada de São Luís, além de possuir vários quadros famosos e livros raros em uma ilha?

O Diabo: isso nem eu sei dizer de quem é, mas na dúvida… acho que é de um Senador…

Sarney: sabe quem Ricardo Murad chama de painho e toma a benção todo dia por telefone antes de sair de casa.

O Diabo: francamente, é o senhor.

Sarney: você sabia que agora sou Presidente do Senado só para abafar uma investigação da PF e tirar o Tarso Genro, tudo isso pra mostrar pro Lula quem manda?

O Diabo: tu és pior que eu, porra!

Sarney: sabe quem possui o maior império de comunicação do Brasil para manipular pessoas em um Estado que tem um dos maiores índices de analfabetismo do país?

O Diabo: cruz credo, és tu.

Sarney: sabes quem é meu genro?

O Diabo: vou enfartar…

Sarney: Se liga, se eu morrer, com certeza, vou pro inferno.

O Diabo: sai pra lá, coisa ruim !

Neste exato instante o diabo escafedeu-se e o avião parou de balançar e tudo ficou como antes…

Moral da história. Até o Diabo tem medo do que Sarney possa fazer no inferno!

* Dizem que essa fábula é contada há tempos nas praças de São Luiz (MA). 

Os lobos dentro de nós

Certa noite, um velho índio falou ao seu neto sobre o combate que acontece dentro das pessoas.  Ele disse: 
– Há uma batalha entre dois lobos que vivem dentro de nós, um é mau:   é a raiva, inveja,ciúme,tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, ressentimento, inferioridade, orgulho falso, superioridade e ego.
O outro é bom: é a alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.
– O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô:  Qual Lobo vence????
– O Velho Índio respondeu : “AQUELE QUE VOCÊ ALIMENTA”
Obs: Recebi este textinho do meu amigo Fernando Bedran. Lembre, alimente seu lobo bom. Desejo uma ótima semana a todos!!

Elton Tavares

Estratégia é Tudo

Um senhor vivia sozinho em Minnessota. Ele queria virar a terra de seu jardim para plantar flores, mas era um trabalho muito pesado. Seu único filho, que o ajudava nesta tarefa, estava na prisão. O homem então escreveu a seguinte carta ao filho:

“Querido Filho, estou triste, pois não vou poder plantar meu jardim este ano. Detesto não poder fazê-lo, porque sua mãe sempre adorou flores e esta é a época certa para o plantio. Mas eu estou velho demais para cavar a terra. Se você estivesse aqui, eu não teria esse problema, mas sei que você não pode me ajudar, pois estás na prisão. Com amor, Seu Pai.”
Pouco depois, o pai recebeu o seguinte telegrama: “PELO AMOR DE DEUS, Pai, não escave o jardim! Foi lá que eu escondi os corpos”.
Como as correspondências eram monitoradas na prisão, às quatro da manhã do dia seguinte, uma dúzia de agentes do FBI e policiais apareceram e cavaram o jardim inteiro, sem encontrar qualquer corpo.
Confuso, o velho escreveu uma carta para o filho contando o que acontecera.
Esta foi a resposta:
“Pode plantar seu jardim agora, amado Pai. Isso foi o máximo que eu pude fazer no momento…”
Estratégia é tudo!!! Nada como uma boa estratégia para conseguir coisas que parecem impossíveis.

Fonte: Meu amigo Farofa e seus e-mails fantásticos.