O Dia do Diplomata e um conto sobre Vinícius de Moraes

                                                         Por Elton Tavares

Opala Diplomata, arma sexual do playbas nos anos 90.
Hoje é o Dia do Diplomata. Não, não é aquele carango bacana dos anos 90, que bebia mais gasolina do que eu tomo cerveja. O diplomata mesmo, aquele figurão que conduz relações exteriores ou os negócios estrangeiros de um determinado país. A diplomacia é uma ferramenta dedicada a planejar e executar a política externa, por meio da atuação de diplomatas.

O mais famoso entre os diplomatas que nosso país teve foi, certamente, Vinícius de Moraes, como ele mesmo dizia: “poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil”. Falando no saudoso poetinha e como a Semana Santa se aproxima, lembrei de um conto, que ouvi em uma mesa de bar no ano passado.
O Vinícius sabia das coisas.

 

De acordo com o jornalista Régis Sanchez, Vinícius teria encontrado uma morena bonita na Lapa, zona boêmia do Rio de Janeiro na sexta-feira santa, entre papos e biritas, o artista investiu:

Vamos a um motel?” e a graciosa mulher teria retrucado: “que isso Vinícius, hoje é dia santo, é sexta-feira santa”.

O poeta, que não era bobo, finaliza a cantada com uma frase certeira: “que nada linda, já passamos da meia-noite, já é sábado de aleluia”. Resultado, Vinícius ganhou a gata.

Se é verdade eu não sei, mas que o velho diplomata não perdia viagem, ah não perdia mesmo (risos). Feliz Páscoa a todos!

O Castanho e o Deconforça

José Araguarino de Mont’Alverne

A fazenda Uruguaiana possuía somente dois cavalos de sela, para o campeio das cinqüenta reses que constituíam o então rebanho bovino: o Castanho e Alazão, nomes tirados da própria raça sem pedigree nem qualquer linhagem nobre. Eram ambos pé-duro, com o Castanho mostrando porte e linhas mais elegantes e harmoniosas. Viviam juntos, até quando o Castanho formou lote, com três éguas adquiridas no Aporema.

A fazenda vizinha, também de rebanho reduzido, não tinha para o serviço de campeação, além de um cavalo e uma égua. O cavalo era o Deconforça, animal fogoso, valente e irrequieto. Era um cardão, também pé-duro, imponente, de boa postura e sobretudo rixoso.

As éguas que passaram a constituir a pequena manada do Castanho, alvaçã de uma orelha derrubada, a castanha e a alazã, despertaram cobiça no Deconforça, que não só começou a desejá-las, como também a açular o bisonho garanhão, tomando-lhe as fêmeas. A qualquer hora do dia ou da noite, tanto estivesse solto, lá vinha o Deconforça atormentar o Castanho, flagelar-lhe as costas e ancas, botar-lhe para correr a arrebatar-lhe as éguas.

A vida do inexperiente pastor tornou-se um inferno, como desassossegada ficou a do velho Justo, crioulo nascido na Guiana Francesa e que era o feitor da fazenda.

Muitas vezes, noites escuras, lá vinha o Deconforça, saltando e quebrando a cerca onde pastavam o Castanho com seu lote. E o velho Justo acordando e levantando a toda pressa, saia célere, resmungando malcriações naquela sua linguagem que era uma mistura de patoá com português inculto, para laçar e tanger o invasor, e ainda remendar a cerca se ficasse danificada.

Mas um dia – lembro-me bem, embora fosse um menino de uns oito anos de idade – estava o Castanho pastando com as éguas na relva macia que se estendia por trás do casarão da fazenda, quando lá do capão, entre duas moitas, surgiu o árdego cardão. Se fez anunciar pelo relinchar provocante, que recuou alem do cordão de buritizal que orlava a mata distante.

O sol da tarde declinava obliquamente, do poente a nascente refrigerando a terra como um bálsamo reconfortante, quando o relincho do truculento animal alvoroçou as mulheres e os meninos. Todos correram pressurosos para o janelão da parede dos fundos. Os homens estavam fora, nos trabalhos de rotina e por isso, aos de casa restava apreciar o espetáculo e ver o que ia acontecer.

O novato pai d’égua ao pressentir o perigo iminente, rufiou as éguas para trás, esticou depois as orelhas, levantou bem alto a cabeça e partiu resoluto ao encontro do outro, sacudindo o pescoço, balançando a crina, ornejando como se proferisse palavrões, soltando baforadas, respirando forte e estrepitposamente pelas narinas dilatadas e pisando firme e raivoso o solo com as patas dianteiras.

O cardão vinha com a certeza de abater o inimigo e tomar-lhe o pequeno rebanho. O Castanho, como se imbuído daquele moral que sente o ser de resguardar o que lhe pertence, parecia decidido a não se deixar abater. E disposto a defender suas éguas a todo custo, confrontou-se com o audacioso rival.

A luta foi indescritível, um duelo de bravos, como de dois titãs tirando cisma, corpo a copo, peito a peito, com ardência e firme desejo de vitória, cada um valorizando pela sua combatividade, a braveza do outro, o Castanho querendo a toda força, apagar do cardão a fama de valente.

Depois de meia hora de briga ingente, o cardão viu-se abatido, jogado ao chão, ao ser abocanhado pelo joelho. Quando levantou tropeçando, para correr com as forças que lhe restaram da refrega, foi feroz e cruelmente fustigado por dentadas a lhe dilacerarem a cernelha, as costas, as ancas e os ilhais de onde espadanava sangue.

Correram pelo campo em fora; o Castanho atrás do Deconforça. Passaram pelo vaquejador e apertaram mais o galope, até sumirem na mata.

Uma hora depois novo relinchar se fez ouvir na direção onde antes haviam sumido na mata; relincho diferente, com entonação de alegria e de canto de vitória. Era o Castanho banhado de suor, retornando depois de ter banido para bem longe e definitivamente, o seu velho e pertinaz desafeto. Trazia como troféu, também marcas de dentadas pelo corpo, e encharcada de sangue a grenha que lhe contornava as orelhas e caia sobre a testa.

As três éguas como se compreendessem o inusitado e valente feito, festejaram-lhe a chegada, saltitando, dando volteios, relinchos, meneios de pescoço e por fim, com farejos amorosos, sorvendo pelas narinas, o cheiro forte do suarento corpo do macho.

José Araguarino de Mont’Alverne, escritor, maçon e servidor público aposentado completou 90 anos no dia 02/11.

A lenda do açaí

Há muitos séculos atrás, muito antes da chegada dos portugueses ao Brasil, existia na região que hoje é chamada de Pará, uma tribo indígena muito numerosa. Como os alimentos estavam escassos, era difícil conseguir comida para toda a tribo. Então o chefe Itaki tomou uma decisão muito cruel. Resolveu que a partir daquele dia todas as crianças recém nascidas seriam sacrificadas para evitar o aumento populacional da tribo.

Até que um dia uma índia chamada Iaçá, que era a filha de Itaki, deu à luz uma menina que também teve de ser sacrificada. Iaçá ficou desesperada, chorava todas as noites de tristeza e saudades. Ficou várias semanas enclausurada em sua oca. Implorou a Tupã que mostrasse ao seu pai outra maneira de ajudar seu povo, sem o sacrifício das crianças.
Certa noite de lua cheia, Iaçá ouviu um choro de criança ao longe, muito longe, bem dentro da floresta. Iaçá seguiu o choro e encontrou sua filhinha, ao pé de uma grande palmeira. Lançou-se em direção à filha, abraçando-a. Porém, misteriosamente sua filha desapareceu em uma nuvem brilhante.
Iaçá, inconsolável, chorou ali até morrer. Dias depois seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira, porém no rosto trazia ainda um sorriso de felicidade e seus olhos estavam em direção ao alto da palmeira, que se encontrava carregada de pequenos frutinhos escuros.
Itaki então mandou que apanhassem os frutos, provou e viu que era muito bom. Batizou de acaí, em homenagem a sua filha (Iaçá invertido). Com esses frutos, alimentou seu povo e desde aquele dia nenhuma criança foi sacrificada.

A “Invenção Sexual” do Zé Ramos – Crônica porreta de Fernando Canto

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Foto: Fernando Canto

Por Fernando Canto

Todo mundo percebeu aflição do Zé Ramos naquela Quarta-Feira da Murta. O Marabaixo corria pela noite com as velhas senhoras rodopiando as saias coloridas pelo salão. O Zé suava tocando a caixa que a essa hora devia pesar uns cem quilos. Ele perguntava se chovia lá fora e se sua mulher ainda estava lá na cozinha tomando um caldo. Alguém disse que sim, então ele pedia mais um copo de gengibirra e esfolava a voz contando um velho “ladrão”, “do tempo do Ronca”, disse-me depois, pois “q12uando se entendeu” sua mãe já “tirava” todas essas músicas pelos salões da Favela e do Laguinho nas festas do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade.

A aflição do Zé dava na vista, parecia que ele estava querendo vigiar a mulher, por ciúme e insegurança, afinal só tinham se casado há dois anos. Ela era morena, jovem e bonita, vestia uma bela saia rodada e uma blusa branca de cetim ornada de rendas. Os cabelos ondulados estavam esticados para trás e enfeitados com uma rosa vermelha de plástico e umas folhas de murta presas atrás da orelha esquerda. Usava um cordão e brincos de ouro, além de inúmeros marabaixo3braceletes prateados que emitiam sons quando dançava, muito sem graça, diga-se, pois era extremamente pudica. Devia ter um corpo escultural debaixo daquela saia estampada de flores coloridas. De vez em quando tirava a toalha do ombro para enxugar o rosto suado e os olhos sem maquiagem alguma. Para isso precisava tirar os óculos de grau que lhe davam um ar sério e uma aparência austera, ainda mais com aquelas sobrancelhas densas e negras. No gesto de enxugar os olhos é que a sua beleza se mostrava por segundos. Ela nem dançava na hora do “dobrado”, a parte rítmica mais acelerada do Marabaixo, que exige dos dançarinos preparo físico e destreza. Nesse momento as pessoas que assistem a dança ao redor do salão ficam excitadmarabaixocapaas assim como os dançantes. Flashes explodem quando as mulheres gritam alucinadamente rodando em volta dos tocadores de caixa e sobre si mesmas, mostrando os trajes de baixo, enquanto os tambores rufam o ritmo africano.

Mas o Zé permanecia tocando com a evidente gastura que lhe tomava conta da alma. Ele viu a mulher ebike1 não se sossegou. Nem quando ela, num gesto de amor, foi lhe enxugar o rosto salpicado de suor. E sem perder o ritmo falou alguma coisa no ouvido dela, apontando para cima. Ela sorriu e assentiu com a cabeça. O Zé acompanhou mais um “ladrão”, entregou a caixa para outro tocador, pegou a bicicleta e a mulher e foi embora embaixo do chuvisco sem se despedir de ninguém.

No dia seguinte encontrei o Zé todo sorridente lá no corredor da prefeitura. Disse-lhe que tocava e cantava muito bem, mas que havia notado nele um comportamento completamente oposto ao que via agora. Perguntei-lhe se estava realmente bem. Ele disse que sim e depois me alucoracao-chuvagou o ouvido, me confidenciando sua vida íntima com detalhes.

Disse-me que a sua jovem esposa só gostava de fazer amor quando chovia. Era uma poetisa maluca – com todo respeito aos poetas – que adorava ouvir o barulho da chuva caindo sobre o telhado de Brasilit e se imaginava tomando banho nua, correndo pela rua, a tarada. A água era seu mundo, a chuva seu prazer maior. Só conseguia chegar ao orgasmo quando a chuva batia e escorria pelos sulcos do telhado. Quanto mais forte a chuva maior era a transa. foto-1Indaguei-lhe como fazia no verão. Ele me disse que quase acabou o casamento quando inventou um intrincado sistema hidráulico que sempre ligava nas noites quentes para enganar a mulher, jorrando água da Caesa sobre as telhas de amianto. Gastou um bom dinheiro, mas valeu a pena.

Quando ela descobriu a tal invenção ficou de mal com ele a estiagem toda, que não foi curta. Agora ele torce para que chova todo dia, assiste aos telejornais e as previsões do tempo, para descontar desde já o “atraso” que terá no próximo verão.

Dia desses encontrei com ele e seu inseparável guarda-chuva. Falei: – E aí, Zé? Estás feliz com esse toró que vem aí? Ele respondeu: – Nãão, é cuia!

Será abdução?

                                                                           Por Raoni Holanda e Elton Tavares

 “Nave do Som” (risos)
Relatos de acontecimentos estranhos têm sido observados por moradores de Macapá. Alguns cidadãos afirmam ter avistado Objetos Voadores Não-Identificados (Óvnis). Segundo eles, as aparições ocorrem com freqüências em boites e clubes da capital amapense. De acordo com estes relatos, a visita dos supostos extraterrestres (ETs) estaria diretamente relacionada ao popular estilo musical local, conhecido como TecnoBrega – Pé-de-pato-bangalô-três-vezes!

Além das aparições, fontes garantem que diversas pessoas ficaram parcialmente loucas, remexendo o corpo de forma ridícula e repetindo mantras de outro mundo como “Faz o T” ou dizendo nomes de pedras preciosas, como o “Rubí”. Seria algum tipo de abdução?

Conforme as vítimas, as naves possuem forma de “aparelhagem”, cruzes! Tal termo  denomina uma engenhoca com muitos, muitos alto-falantes juntos, que emitem uma espécie de tortura sonora para ouvidos mais apurados. Estas Naus seriam pilotadas por seres de calcinha preta, do planeta Calpso.

Alguns, mais religiosos, afirmam que as pessoas que viram o fenômeno foram vítimas de possessão demoníaca e encaminharam as vítimas para o pastor mais próximo. Aconselhamos aos abduzidos que escutem boa música, rock, samba (samba NÃO é pagode) ou MPB, a fim de minimizar os efeitos do ocorrido. Se possível, um pouco de leitura ou viagens, para os efeitos não retornarem jamais.

Apesar de um grande número de pessoas confirmarem a aparição dos Óvnis em Macapá, até o momento não existe nenhuma sustentação da realidade nos depoimentos colhidos, nem através de vídeos, fotografias ou semelhantes. Nenhuma autoridade local pronunciou-se sobre o ocorrido.

Alertamos que, as vítimas que não seguirem as instruções para a desintoxicação das abduções, sofrerão conseqüências catastróficas e irreparáveis, pois nunca conseguirão curar-se. Elas tentarão reproduzir as naves em seus automóveis, a fim de engrossar as fileiras do fatídico destino, tornar-se um apreciador da sonoridade. Fooooda-se!