Hoje minha mais que maravilhosa mãe gira a roda da vida. Feliz aniversário, Maria Lúcia!

Maria Lúcia, minha mais que maravilhosa mãe, gira a roda da vida pela 67ª (com rostinho de 50) vez neste terceiro dia de fevereiro.  Mamãe é uma mulher exemplar como genitora, foi uma excelente profissional da educação, é a melhor cozinheira do mundo e meu anjo da guarda. Aliás, ela é tantas coisas Phodas para mim e para meu irmão Emerson que é difícil enumerar em um só texto de aniversário.

Certa vez, um cara me disse que uma mãe “é uma espécie de Deus particular” para cada um de nós. Deveria ser sempre assim, mas não é. E por ser essa mãe amiga, pois existem sim mães inimigas, hoje rendo homenagens e agradeço à Deus pela vida de Maria Lúcia.

Já disse e repito, juntamente com a tia Inês, Maria Lúcia é a filha mais dedicada da vovó Cacilda, vó coruja da pequena Maitê e boa esposa do Enilton e uma pessoa sempre preocupada em nos fazer felizes. A gente colide às vezes, pois herdei o seu gênio fortíssimo, mas nos amamos demais que isso não faz a mínima diferença.

Dela também herdamos a força e caráter. Difícil contabilizar tudo que ela já fez por mim e pelo meu irmão. Aliás, muito mais por mim, seu filho mais velho. A nossa “Lucinha” é uma mulher espetacular e admirável. Ela personifica os amores que tem e realmente faz valer seus dias por cada um de nós.

Orientadora educacional e professora aposentada, mamãe trabalhou muito, desde bem novinha, para vencer na  vida. Ela conseguiu e batalhou muito para dar o melhor para seus filhos, sua mãe e seus irmãos.

Mamãe é íntegra, honesta, inteligente, batalhadora, e decente. Lucinha sempre foi a luz do meu caminho e o amor que sempre zelou por mim. Ah, ela tem a reza mais forte que conheço e quando tenho problemas, peço suas orações. Sempre sinto que sua reza e sua bênção são mágicas poderosas com o divino e me alcançam.

Eu e meu irmão, temos a honra o privilégio de sermos seus filhos, pois a amamos e somos correspondidos desde o início desta jornada (no meu caso, há 44 anos). Dela, herdamos atitude e firmeza. Eu e Emerson talvez não fossemos caras trabalhadores e todo o resto de coisas legais que nos tornamos se não fosse por conta da Lucinha.Dançarina de fim de semana, minha conselheira e benzedeira, inteligente e sábia. Ela é, sempre foi e sempre será minha melhor amiga.

Maria Lúcia, que Deus continue a lhe dar saúde, que a senhora siga com essa sabedoria, sexto sentido e alegria (e brabezas) que lhe são peculiares. Que tua vida seja longa, que essa data se repita por pelo menos mais umas 67 vezes. Não à toa, a gente te ama demais.  Parabéns pelo teu dia. Feliz aniversário!

Elton Tavares e Emerson Tavares (pois como irmão mais velho, posso falar pelo Merson).

Paranoias de quem sente o tempo passar – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ilustração de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

De vez em quando, batem algumas paranoias, tipo o medo de perder o movimento do braço direito. Para quem é destro, ficar com esse braço fora de combate é um pesadelo. Dia desses, bateu esse medo, que era mais do que medo, era a absoluta certeza de que eu amanheceria sem conseguir desenhar ou escrever.

Alguém pode sugerir que eu passe a escrever com a mão esquerda. Isso não é tarefa difícil no teclado do computador, só é mais demorado. Acontece que eu só começo a escrever no computador depois de ter rabiscado no papel grande parte do texto.

Mas a preocupação de não poder usar a mão direita está relacionada mais à prática do desenho do que da escrita. Pois é. Quando bateu a certeza, no meio da madrugada, de que eu amanheceria com o braço direito inerte, passei a desenhar freneticamente. Na minha cabeça, eu tinha que produzir tudo o que me restava para desenhar e concluir a minha carreira de cartunista.

Ao acordar, conferi de imediato minha habilidade com a mão direita e respirei aliviado. Ainda teria mais algum tempo para produzir os meus cartuns. Minha carreira não estava encerrada. O que bom disso é que, forçado a criar e depois de passar o crivo, vi que muito desenho legal tinha surgido dessa paranoia.

Na madrugada seguinte, a cisma foi outra. Achei que poderia acordar cego. E toca a ler, escrever e desenhar tudo o que podia, aproveitando os últimos clarões de uma visão que já não é lá essas coisas.

No dia seguinte, para meu consolo e júbilo, meus olhos ainda estavam aqui, me servindo, precisando ainda da muleta dos óculos, mas intactos.

Que paranoias são essas que o passar do tempo vai colocando em nossa existência, como numa corrida com barreiras que precisamos saltar? Ops! Neste momento, bateu mais uma dessas: tenho a firme convicção de que vou perder completamente a memória, que já há algum tempo vem dando sinais de pane.

Licença aí que eu vou fazer tudo o que consigo lembrar. Se for só paranoia, a gente se fala depois, em outra crônica. Ok? Tchau!

(O que é que eu vou fazer mesmo?)

Monólogo Mundo Moderno – Texto genial e saudoso Chico Anysio

E vamos falar do mundo, mundo moderno marco malévolo mesclando mentiras modificando maneiras mascarando maracutaias majestoso manicômio meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres miscigenação morticínio, maior maldade mundial madrugada, matuto magro, macrocéfalo mastiga média morna monta matumbo malhado munindo machado, martelo mochila murcha margeia mata maior manhazinha move moinho moendo macaxeira mandioca meio-dia mata marreco manjar melhorzinho meia-noite mima mulherzinha mimosa maria morena momento maravilha motivação mútua mas monocórdia mesmice muitos migram mastilentos maltrapilhos morarão modestamente malocas metropolitanas mocambos miseráveis menos moral menos mantimentos mais menosprezo metade morre mundo maligno misturando mendigos maltratados menores metralhados militares mandões meretrizes marafonas mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente modestas moças maculadas mercenárias mulheres marcadas mundo medíocre milionários montam mansões magníficas melhor mármore mobília mirabolante máxima megalomania mordomo, mercedez, motorista, mãos magnatas manobrando milhões mas maioria morre minguando! moradia meiágua, menos, marquise mundo maluco máquina mortífera mundo moderno melhore melhore mais melhore muito melhore mesmo merecemos maldito mundo moderno mundinho merda!

Chico Anysio

Sobre insônia e cartas de amor

 


Há quatro anos e pouco, uma amiga disse: “Elton, vou te enviar uma carta”. Eu: “Correio eletrônico?”. Ela: “Não, cara. Uma carta mesmo, escrita em papel, dentro de um envelope e com um selo”.

Pensei: “Égua, pode crê”. Lembrei do tempo que trocava correspondências. Recebi muitas nos anos 90. Esse papo me lembrou histórias e memórias afetivas legais. Pura nostalgia.

Passou uma porrada de lembrança em câmera lenta nesta minha cachola insone.

O mundo mudou tanto e, com ele, a praticidade dos e-mails, redes sociais etc. A comunicação está supersônica nestes dias, mas deu uma saudade daquela sensação de esperar pelo carteiro, abrir e ler os textos açucarados e exagerados daquela época.

Era firmeza receber e enviar cartas. Sou mesmo das antigas – que onda.

Sem nenhuma pretensão ou gabolice, digo-vos: recebi muitas cartas nessa vida. A maioria nem era de amor mesmo. Guardei uma grande quantidade. É, tenho uma caixa grande repleta dessas coisas, pois aproveitei ao máximo o poder e a beleza dos 20 e poucos anos.

Paralelo a essa curtição toda, fiz alguns julgamentos errados; por isso, joguei algumas delas fora – tem coisas que é melhor não guardar em nenhuma caixa, muito menos na memória.

Mas na caixa tem de tudo, desde rabiscos em lencinho de papel de lanchonete, escritos coloridos até cartões tipo de crédito – daquele casalzinho que tinha o slogan “Amar é…” – e uma penca de fotos. Às vezes, o conteúdo era pura pieguice; noutras havia originalidade nas histórias.

Já redigi material suficiente para publicar pelo menos uns três livros, muitos destes textos sobre temas que hoje em dia não fazem nenhum sentido, mas escrevi poucas cartas. E isso é esquisito.

Sobre isso, preciso escrever uma carta com a verdade e endereçar a quem precisa ler sobre o amor. No caso, o meu. Senão, mais que uma lembrança nostálgica da juventude, será uma correspondência não enviada de volta na caixa do meu imaginário. Na verdade, uma chance desperdiçada. É isso.

*Ernest Hemingway disse: “Escreva bêbado, revise sóbrio”. Segui o conselho do mestre neste texto (risos).

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020. A obra, com 61 crônicas, tá linda e está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038.

Resenha do livro “QUARUP” – Antonio Callado. (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Ainda criança em um bairro do subúrbio paraense, eu ficava intrigada com um documento que se estampava na TV a cada programação. Para mim, era algo que não permanecia sob minha vista tempo bastante para que meus olhos recém-alfabetizados tivessem tempo de ler e entender. Hoje eu sei que tratava-se de censura; mais uma das liberdades suprimidas pelo regime da época. Eu estou na casa dos quarenta e, mesmo assim, lembranças – que para alguns parecem tão efêmeras – voltaram a mim através de Quarup.

O livro se inicia na década de 50 e conta a estória de Nando, um jovem padre pernambucano que sonha em dar continuidade ao trabalho dos jesuítas no Xingu, mas não apenas pela catequização e sim por acreditar na pureza indígena e que deles é proveniente a essência do Brasil. E Nando embarca para o Xingu banhado deste sonho. Mas não antes de se deparar com temores carnais que são da essência do homem, potencializados em Nando pelo sacerdócio.

Chegando ao Xingu, Nando se vê em uma realidade longe da teoria que conhecia e através de Fontoura – um funcionário do SPI (Serviço de proteção ao índio) que conhece e vive com a alma entre eles – reformula e esclarece sua visão a respeito daquele povo, seus costumes, sua nudez desprovida de malícias, a simbologia que carrega o uluri, a tanga que cobre as índias e só por elas podem ser retiradas para que alguma coisa aconteça. O índio não ousa tocá-lo. Se uma índia joga seu uluri pra cima o índio se esquiva, pois só a índia detém o poder de seu manuseio. E muita gente achando que civilizado mesmo é o homem branco.

Existe ainda uma comitiva que embarca para o Xingu; entre eles existem outras personagens que mostram em seus diálogos, variadas visões de mundo. Ainda no Xingu, Nando se depara com os entraves burocráticos e políticos que são ainda mais inviabilizados pela corrupção. Em meio a tudo isso, a influência dos acontecimentos políticos da época, como a morte de Getúlio Vargas, que refletiria diretamente na expedição. Nando ainda tem a difícil tarefa de guardar para si o amor por Francisca, noiva do idealista Levindo.

Ao retornar do Xingu, Nando deixa o sacerdócio e posteriormente a ditadura militar se instala no país. Nando deixa de ser padre, mas o coração de sacerdote continua com ele, mesmo já tendo abandonado a liturgia e conhecendo prazeres do sexo e das drogas, ele preserva em si a caridade e o olhar para a dor do outro. As dores não só dos índios que morriam doentes e de fome, mas dos camponeses explorados, das feias, das prostitutas.

Nando faz uma peregrinação dentro de si mesmo. E cada personagem do livro lhe abre um caminho para vislumbrar, como Lídia, que lhe relata que Otávio, seu noivo, teria criado uma única rixa com Lênin, após ler Clara Zetkin, onde Lênin não teria aceitado a teoria do copo d’água. Outras personagens com graciosidade e força expõem suas personalidades em diálogos que trabalham todas as mudanças que se operam em Nando.

Quarup é um ritual indígena de Mawutzinin, o primeiro homem do mundo na cultura indígena. E seu Quarup é o ritual que leva os mortos para uma outra vida. E assim como os índios se encaminham para uma nova vida, Nando também tem seu Quarup.

Esta é uma obra-prima que saiu das mãos, mente, coração e sangue de Callado. Você se depara com o Brasil de uma forma genuína. Os índios, o Nordeste da década de 50/60, a história política e os horrores nos porões da ditadura. É um livro que desperta uma trilha sonora em sua cabeça. Você pode ouvir Belchior cantando ao fim de cada página. E creio que nada que escrevi fará elogios que bastem a esta obra. Pois é uma obra densa e com personagens que com tristeza deixei de mencionar para evitar spoiller. Ontem à noite, ao fechar a última página do livro e ainda olhando para o número 573, lembrei de a quantas andam nossas mazelas diárias nestas terras onde cantam os sabiás que de nada sabem, e pensei: Que nosso Quarup nos levem a tribos mais gentis.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Impeachment– Uma piada constitucionalmente prevista – Por Mariana Distéfano Ribeiro

Por Mariana Distéfano Ribeiro

Passeando pelos stories do Facebook eu vejo muitos comentários sobre a atuação do Presidente Bolsonaro no exercício da função. Me espanta a quantidade de pessoas que é conivente com o comportamento e entende que, por exemplo, é direito dele não querer tomar a vacina, não aceitar usar máscara, ser grosseiro e “mitar” com os jornalistas, fazer apologia à tortura, à ditadura, à homofobia, entre tantas outras tosquices que esse ser humano fez (e ainda faz).

Pois eu digo com toda certeza e convicção que Bolsonaro, na qualidade de Presidente da República Federativa do Brasil, não tem o direito de agir como ele age, de falar o que fala e pregar o que ele prega!

Por que não? Porque ele é o Presidente, oras! É dever dele, obrigação intrínseca e necessária da função que exerce possuir o mínimo de bom senso, de cautela, de educação, de prudência na direção de qualquer país em que impere o estado democrático de direito.

A falta de educação recorrente do dirigente de um país, a imprudência no enfrentamento e no trato de questões e situações delicadas, que possuem um potencial significativo de inflamar ânimos e incentivar radicalistas contumazes a sair da esfera das ofensas verbais e virtuais para as ofensas físicas, especialmente aqueles preconceituosos, tende a causar comoções sociais graves e violentas. Foi exatamente isso que aconteceu na invasão ao prédio do Capitólio, sede do Congresso americano, no dia 06/01/2020, quando o ex-presidente Trump resolveu insistir, mais uma vez, na invenção de que as eleições estadunidenses foram fraudulentas e que, na verdade, ele teria vencido. E Bolsonaro ainda disse que se não tiver voto impresso nas próximas eleições (2022), vai acontecer o mesmo com o Brasil.

Os presidentes Trump e Bolsonaro em encontro em março de 2020, na Flórida.TOM BRENNER / REUTERS

Lá, nos Estados Unidos, o ex-presidente Trump já está indo embora. Mas aqui a gente ainda tem mais 2 anos de desgoverno Bolsonaro.

Certo. A gente concorda que o Bolsonaro está fazendo quase tudo como se fosse uma criança da 5ª série (aliás, ele até fala como uma… uma bem malcriada…). Então, deve ter alguma alternativa pra tirar ele da Presidência.

Pois tem. Essa alternativa é o processo de impeachment por crime de responsabilidade e tem previsão no art. 85 da Constituição Federal , com regulamentação pela Lei nº 1.079 de 10/04/1950 , e também por crime comum (como homicídio) como prevê o art. 86 também da CF.

Trata-se de um processo político, administrativo e não-judicial. Até a última atualização do dia 08/01/2021, haviam 53 pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

Acontece que o pedido tem que cumprir alguns requisitos, como indicação de provas e de testemunhas. O que não é muito difícil, dada a ausência de preparo e de discrição do nosso Presidente. A Lei nº 1.079 ainda descreve quais são os casos em que os atos do Presidente serão crime de responsabilidade.

Um dos artigos da Lei diz que é crime de responsabilidade quando Presidente atenta contra o livre exercício dos poderes da União (Legislativo e Judiciário, porque ele mesmo é o Executivo).

Atentar contra é se manifestar contra, injuriar, maldizer, impedir a atuação por meio de algum recurso que é inerente à atuação da Presidência.

Então… lembram daquela manifestação, lá em Brasília, que um monte de gente foi pra frente do Supremo Tribunal Federal (STF) pedir o impeachment (é existe impeachment pra maioria dos cargos políticos e de estado) de um dos Ministros e o fechamento do Poder Judiciário e do Legislativo? Aquela manifestação em que o Bolsonaro foi montado a cavalo?

Lembrou? É, aquilo lá foi crime de responsabilidade.

Esse é um dos exemplos que eu considero mais gritantes e significativos da afronta ao estado democrático de direito que o atual dirigente do Brasil cometeu até hoje.

Muitos outros foram e ainda são cometidos como o incentivo ao uso de armas de fogo, a recusa em cumprir as determinações de medidas sanitárias federais, estaduais e municipais de combate ao coronavírus, as constantes apologias à tortura, à homofobia, à misoginia, à ditadura. Todos esses atos incentivam o extremismo de pessoas preconceituosas e os encorajam a mostrar a cara e manifestar suas opiniões em discursos de ódio.

Ok. Mas então por que o processo não vai pra frente se o Presidente já cometeu tantos crimes de responsabilidade?

Porque é um processo político. O Presidente da Câmara dos Deputados tem que deferir, aceitar e concordar expressamente com o pedido e encaminhar para uma comissão especial de Deputados. Essa comissão é que vai decidir se o processo vai pra frente ou não.

Ainda, depois que o processo passa pela anuência do Presidente da Câmara, o Presidente da República ainda tem prazo para apresentar sua defesa, a Comissão tem um prazo para fazer um parecer que ainda precisa passar pelo crivo de 2/3 dos 514 Deputados Federais, ou seja, 342 Deputados.

Agora, com a popularidade que o Bolsonaro tem até hoje , você acha mesmo que um Deputado vai aceitar um processo de impeachment contra o Presidente? É claro que não vai.

Por isso que o processo de impeachment é um processo tipicamente político. Fosse jurídico, o Presidente da Câmara dos Deputados não teria outra alternativa a não ser a de receber e aceitar todo pedido de impeachment que tivesse todos os requisitos da Lei nº 1.079 comprovadamente elencados no processo.

Fazendo uma analogia bem descompromissada, imagine que chegasse no Poder Judiciário, lá no fórum da sua cidade, numa vara criminal, uma denúncia de alguém que supostamente cometeu um crime qualquer, com todos os requisitos previstos na lei para aceitação da denúncia – inquérito, peça do Ministério Público. Aí o Juiz olha pra denúncia e diz: ah… esse cara aqui é meu amigo, ele é muito conhecido na cidade e todo mundo gosta dele… não vou aceitar essa denúncia não. E simplesmente arquiva o processo ou deixa na gaveta.

Já pensou?! Absurdo, não é?

Pois é… o processo de impeachment é mais ou menos assim. O cara comete o crime previsto em lei, mas é amigo dos reis e todo mundo gosta dele. Mas se ele for impopular, vai cair rapidinho. Seria cômico se não fosse trágico.

É, o processo de impeachment, com o rito previsto na atual legislação, é uma piada constitucionalmente prevista.

Fontes: BBC, El País, Jornal do Brasil, Planalto, Planalto, A Pública e Ibope Inteligência

*Além de feminista com orgulho, Mariana Distéfano Ribeiro é bacharel em Direito, servidora do Ministério Público do Amapá e adora tudo e todos que carreguem consigo o brilho de uma vibe positiva.

É Natal (Belíssima crônica de Natal de Alcy Araújo Cavalcante)

É Natal

Por Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)

Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens. O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.

Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.

Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.

Mais uma vez é Natal!

Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas. A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.

É Natal!

Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.

É Natal!

Repetem meus arrependimentos nas estradas.

E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo. Há um polichinelo no bazar. Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol. Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, por trás da Eternidade.

Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante

Marcelle Nunes gira a roda da vida. Feliz aniversário, Celle! – @cellenunes

Quem gira a roda da vida neste quinto dia de dezembro é a competente jornalista, assessora de comunicação e muito querida amiga deste editor, Marcelle Nunes. Mesmo neste 2020 atribulado e cheio de coisas ruins, é uma data feliz, pois a Celle renova seu ciclo nesta vida em que dividimos muitas alegrias, há quase uma década. E por isso,  lhe rendo homenagens.

Marcelle Nunes é muito dedicada à sua família; é uma filha, irmã, sobrinha e amiga zelosa, fiel e amorosa. Também uma mulher justa, competente e brilhante. A menina escreve, fotografa, filma, edita, cobre futebol, faz roteiro, manja de redes sociais, sabe tudo dos bastidores e se garante em todas as frentes dessa nossa maluca profissão. Enfim, aí conhece de jornalismo, de assessoria de imprensa e estratégias de trampo.

Marcelle é culta, corajosa, tenaz, safa (às vezes besta para oportunistas de sua boa vontade), prestativa, leal aos seus e pessoa que muito me honra ter a amizade, pois ela possui uma alma sensível. Paralelo a isso, é doida varrida, amalucada e parceira.

Todos deveriam ter uma amiga como Marcelle Nunes. Ela sabe tudo de mim. É uma das pessoas em quem confio e posso contar. É recíproco, inclusive. Temos tantas histórias saborosas que oscilam entre responsa profissional e nossa afinada lucidez louca pessoal.

Nos meus dias cinzas ou noites obscuras, a Celle é cor e luz. Ela sempre tem uma palavra amiga, um conselho ou, se tudo estiver muito ruim, uma piada para melhorar o meu “eltontavarismo-agudo-visceral” . A querida é, há tempos, minha psicóloga e confidente. Antes eram em consultórios disfarçados de mesas de bar e, nestes tempos de afastamento, via bate papo no celular. E a gente ri. Aliás, a gente ri muito juntos.

Já disse e repito: somos capazes de nos divertir em qualquer lugar. Lembro que quando eu morei sozinho, Celle sempre ia ao supermercado comigo. A gente ria muito comprando gordices legais ou rodando horas escutando The Smiths em uma noite do Dia dos Namorados, simplesmente pelo fato de não namorarmos ninguém e decidirmos encher a cara em algum lugar tranquilo (o que foi um desafio e tanto).

Dizem que felicidade e tristeza não existem e sim momentos tristes e felizes. É verdade. Quando estou com as pessoas que habitam o meu coração, é como receber partículas de Deus (talvez para alguns hipócritas, do diabo). É assim com o meu povo, meus amigos, os irmãos que escolhi. Celle está entre eles.

Estar com ela é sempre porreta, divertido, memorável. A menina é uma dessas pessoas que fazem valer, põem a vida em movimento e produzem encontros que se tornam memórias felizes. Seja um simples almoço no meio da semana ou uma transloucada noite de sábado.

Volto a ser repetitivo: eu e Marcelle Nunes temos um caso de amor astral. A gente é brother no sentido literal de irmandade. Quando bate uma tristeza de leve, o antídoto do veneno é uma cerveja com ela. Logo que nos encontramos, a atmosfera já muda pra melhor. E isso, minha gente, não é um exagero.

Sinto saudades das nossas tradicionais noites de segunda-feira, em que rolava um balanço (sempre cômico, pois a gente ri até quando nos fudemos) dos corres e dos rocks doidos. O tempo passou, eu virei o velho chato, gordo e grisalho. Mas a Celle continua a me aturar.

Celle é realmente uma personagem cinematográfica na minha existência e sou grato ao criador por isso. Não tenho uma única memória infeliz ou lembrança de marcada dela para comigo (os furos foram perdoados). Como eu disse em outro texto, com essa doida adorável, é mais fácil vencer os filhos da puta que encontramos no caminho.

Celle, agradeço por tua existência orbitar a minha e vice-e-versa. Que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que tenhas sempre saúde, mais sucesso, grana e que tudo que tu conceitues como felicidade se realize. Que Deus continue a te iluminar e que tu continues nessa longa e louca estrada de tijolos amarelos por pelo menos mais uns 100 anos. Que a Força esteja contigo. Te amo pra caralho (como dizia Millor: “qual expressão traduz melhor a ideia de intensidade do que “do caralho”?)!

Meus parabéns e feliz aniversário!

Elton Tavares

Site De Rocha completa 11 anos no ar

Parece que foi ontem, mas já faz 11 anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos 11 verões e um dia.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei como assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até bobagens de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Jaci Rocha, Patrícia Andrade, Alcinéa Cavalcante, Luiz Jorge, Marcelo Guido e Marcelle Nunes, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Ah, os caras que fazem a manutenção do boteco: Rômulo Ramos e Laerte Diniz. Obrigado, meninas e caras.

O blog morreu há seis anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Muitas das crônicas de minha autoria foram reunidas em um livro, o “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, lançado em setembro passado (à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038).

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei a maioria. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu!

Elton Tavares

Hoje é Sexta-Feira 13 e uma SEXTA-FEIRA 13 EM 2020 (saiba mais sobre as lendas deste dia, que mexem com o nosso imaginário)

Hoje é sexta-feira 13. Rolam muitas lendas e superstições sobre a data. Não é fácil explicar o motivo pelo qual muitos temem as sextas-feiras 13. Mas alguns supostos eventos, de acordo com algumas crenças e história, amaldiçoaram a o dia.

As histórias mais conhecidas envolvem a crucificação de Jesus Cristo, que teria ocorrido numa sexta-feira, já que a páscoa judaica é comemorada no dia 14 do mês de Nissan, segundo o calendário Hebraico, além do fato que após uma ceia com 13 pessoas (os 12 apóstolos e o próprio Jesus).

Também existe um conto da mitologia nórdica, em que um jantar para 12 deuses foi invadido por Loki, o espírito da discórdia, e resultou na morte de Balder, divindade da Justiça, o favorito dos deuses. Por isso é considerado mal agouro convidar treze pessoas para um jantar, mas tem pessoas que também consideram mal agouro porque os conjuntos de mesa são constituídos por 12 copos, 12 pratos e 12 talheres.

Outra lenda diz que a deusa do amor e da beleza era Friga (que deu origem a sexta-feira). Quando as tribos nórdicas e alemãs se converteram ao cristianismo, Friga foi transformada em bruxa. Como vingança, ela passou a se reunir todas as sextas com outras 11 bruxas e o demônio, os 13 ficavam rogando pragas aos humanos.

De volta ao cristianismo, historiadores apontam o 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, como o dia em que o Rei francês Filipe IV declarou ilegal a Ordem dos Templários, cujos membros foram torturados e mortos por heresia.

Além das crenças antigas, a propagação do 12 como número completo, utilizado para medir os meses, signos do Zodíaco e tribos de Israel, desvalorizou o 13, cujo medo irracional causado nas pessoas ganhou o pomposo nome de triscaidecafobia – e, no caso do temor da própria sexta-feira 13.

Seja qual for a versão oficial, o que importa é que seu efeito assusta e seduz a nossa imaginação. Seu mau agouro serve como inspiração para a produção de filmes e músicas no intuito de entreter e assustar.

O mais famoso representante dessa leva é a série de filmes “Sexta-Feira 13”, que conta a história do assassino Jason Voorhees, que após morrer afogado ainda jovem, volta para assombrar aqueles que se aventuram pela colônia de férias Crystal Lake.

Apesar das dezenas de tiros, facadas e machadadas, o deformado psicopata, que esconde seu rosto por trás de uma máscara de hockey, sempre sobrevive para mais uma sessão de assassinatos. A lenda ainda afirma que Jason, não por acaso, nasceu em 13 de junho de 1946, uma sexta-feira.

Pois é, gente. Jason já deve estar assombrando por aí, com o seu terçado em punho, no imaginário de alguns malucos. E hoje é uma sexta-feira 13 em 2020, esse ano atípico com pandemia e apagão no Amapá, entre outras mazelas.

Mas que hoje não tenhamos nada de azar e sim muita sorte. Vamos todos assombrar, confraternizar, beber cerveja, papear, rir e tudo o que nos fizer felizes, dentro do possível e com os devidos cuidados. É isso!

Elton Tavares, com informações do site “Último Segundo”. 

A história e lendas da Pedra do Guindaste (em frente de Macapá)

Foto: Renato Ferreira

A Pedra do Guindaste é um monumento localizado em frente à cidade de Macapá, ao lado do Trapiche Eliezer Levy, dentro do Rio Amazonas. No século passado, ela teve como finalidade servir de alvo aos exercícios de tiro dos soldados, ao lado norte da Fortaleza de São José de Macapá.

Pedra do Guindaste – Arquivo de Floriano Lima.

Existem lendas em torno da “Pedra do Guindaste”, que ao longo dos tempos vêm servindo de inspiração a muitos poetas e pintores regionais. Uma delas é contada pelos moradores da antiga rua da praia e igarapé das mulheres, que afirmam existir uma cobra grande, com dimensões não calculadas, que na “maré de reponta”- ou seja, quando a água do rio não está na cheia e nem na vazante -, sai dali para tomar água, de maneira que a mesma nunca conseguiu cobrir a pedra. Se por ventura, alguma autoridade tiver a infelicidade de mandar retirar a pedra do rio, a água do amazonas subirá tanto que Macapá toda irá para o fundo.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Um dia colocaram a imagem de São José, padroeiro de Macapá, em cima da pedra. Pouco tempo depois um navio chocou-se com ela destruindo-a. No lugar foi construído um pedestal de concreto para São José, colocado de costas para a cidade, mas abençoando todos que aqui chegam pelo majestoso rio Amazonas.

Foto: Márcia do Carmo

A imagem do santo padroeiro é uma obra de arte do escultor português Antônio Pereira da Costa. Ele também esculpiu os bustos de Tiradentes (na Polícia Militar) e Coaracy Nunes (no aeroporto) e os leões do Fórum de Macapá (atual sede da OAB).

Fontes: Porto Retrato e Alcinéa

O Amapá fica no Brasil – Por Dulcivânia Freitas – @DulcivaniaF

Por Dulcivânia Freitas

Depois de quatro noites e três dias sem energia elétrica, internet, telefonia e abastecimento precário de água, amanhecemos o último sábado com o retorno destes itens no meu bairro. Naquele momento, os informes do Governo do Estado já sinalizavam que teríamos racionamento pela frente. A primeira providência foi acalmar os familiares e amigos de fora do Amapá.

Meu marido e eu dormimos em média três horas a cada noite, felizmente nosso filho de nove anos dorme tranquilo mesmo sob a alta temperatura e umidade, que são características do clima do Amapá. E essa foi a parte confortante da saga.

O emocional ficou impactado, porque represamos bastante em nome da resiliência e o estresse acumulado começou a se expandir por meio de tremores nas mãos. Embora estejamos em condições boas de moradia e outros itens de uma vida digna e que todos deveriam ter, num estado tão rico e pequeno (portanto, mais fácil para administrar), não tenho os olhos e o coração vendados para a situação estrutural da maioria da população.

O fato é que, não apenas em Macapá, mas nas demais cidades do estado, nas ruas e nos distritos e comunidades do interior aonde chega rede de energia, ainda está configurado o cenário de pré-apocalipse. A interrupção da energia elétrica desencadeou uma crise simultânea e de altos impactos nas comunicações, abastecimento de alimentos, de combustíveis e de água, além de amargos prejuízos nos setores de comércio e serviços em geral.

Ao mesmo tempo surgiram várias redes de solidariedade e apoio, ações emergenciais das autoridades, práticas de doações e muitas manifestações externas e internas, como é comum em situações semelhantes de calamidades em qualquer parte do país. Há grupos de pessoas mais vulneráveis do que outros, com certeza. Inclusive, há bairros e comunidades inteiras que vivem há muitos anos, e na rotina, esse flagelo social de falta de água potável e de fornecimento regular de energia quase que na invisibilidade. É diária e cruel a rotina de falta de acesso a serviços essenciais e básicos por parte da maioria da população. Eu poderia me acomodar com a boa estrutura de vida da minha família, em meio a essa crise energética sem precedentes no Amapá, onde temos a “sorte” de contar com o retorno da energia e de usufruir de outros direitos básicos e elementares que não chegam a milhares de outros moradores o tempo todo – não só agora nesse período de apagão.

Mas optamos por não sermos indiferentes. O jogo do contente pode se tornar patético quando não percebemos a linha tênue da insensibilidade e do individualismo.

O mínimo que temos a obrigação cristã e moral de fazer é informar aos familiares e amigos de fora do Amapá que o restabelecimento da energia não está normalizado, há muito sofrimento em boa parte das residências de todas as classes sociais, e também no interior do Estado. Enfatizar que a falta de energia elétrica num estado onde a temperatura e a umidade são muito elevados, a impossibilidade de ligar um ventilador que seja significa suplício, corpo e cabelo melecados, sensação de colapso mental em adultos, crianças gritando de calor, e outros infortúnios. Vou me abster de expor minha participação nas iniciativas de solidariedade e doações.

Só quero dizer que é comovente ver uma legião de pessoas tão abnegadas em promover, organizar e colaborar, preocupadas de fato com o bem estar básico dos vulneráveis. Existe uma reação de pequenos grupos de moradores, em forma de protestos com interdição de ruas. A panela de pressão explodiu, e eu desejo que seja o começo de uma nova postura de compreensão do quanto são oprimidos em seus direitos a vida inteira, e que esta crise trouxe à tona questões que precisam ser debatidas com profundidade. O compromisso de boa parte dos agentes públicos, privados e de parte da sociedade, com o desenvolvimento socioeconômico do Amapá também está no apagão há décadas.

Muita luz para todos nós, em todos os sentidos!

*Dulcivânia Freitas é paraibana, mas mora no Amapá há décadas. Ela é jornalista e assessora de comunicação.

Resenha do livro “O Diário de Nisha – Veera Hiranandani (por Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Antes de falar sobre o livro, é importante contextualizar rapidamente sobre a Partição da Índia, que era um protetorado da Inglaterra. Em 1947, os britânicos, ocupados em focar em sua própria reconstrução no pós-guerra, acordaram a divisão do Raj britânico em dois países, Índia e Paquistão. A Índia, de maioria Hindu, enquanto o Paquistão era majoritariamente muçulmano. A partição fez as populações dos dois países migrarem para o país que, em sua maioria, professava a sua fé. Este deslocamento foi desastroso, ocasionando mortes, estupros e crimes dos mais diversos. Várias pessoas deixaram seus lares e todos os seus bens pra trás a fim de sobreviverem a uma atmosfera tomada pela intolerância religiosa.

O evento histórico é narrado no livro sob a ótica de uma menina de 12 anos, Nisha. Ela conta os acontecimentos a sua falecida mãe através das páginas de um diário.

Apesar da história trágica de um povo, o livro carrega uma beleza que, para mim, é até difícil sintetizar. O pai de Nisha é um médico rigoroso que tem uma relação difícil com Amil, o irmão de Nisha. Essa relação se transforma quando o pai se depara com a perda iminente. Apesar de todos os miseráveis dias que aquela família passa durante sua migração, o leitor percebe a cada dia os laços se solidificando, o que me faz pensar o quanto a desgraça compartilhada une pessoas.

Dadi, avó paterna de Nisha, incomodava a protagonista com alguns de seus hábitos. Incômodo este que some com o tempo, através de situações que tornam aquela misofonia menos importante, dando relevância ao que realmente é relevante na vida.

Nisha, que vivia em família Hindu, mas que tinha mãe muçulmana, questiona em sua inocência de menina, os motivos para que haja ódio entre Hindus, Sikhs e muçulmanos. Pois existe Kazi, um cozinheiro muçulmano que trabalha na casa de Nisha e que faz parte de sua família.

Kazi desperta em Nisha o amor pela culinária, fazendo os momentos na cozinha serem as horas em que a menina encontrava a paz.

É um livro lindíssimo, mas com passagens terríveis; apesar da própria protagonista, em alguns momentos, não perceber a gravidade do que está vivenciando, sente-se nesta leitura todo o terror da migração no caminho e dentro dos trens. A alegria por coisas comuns em nossos cotidianos, mas que são preciosidades para outros, ainda mais em tempos de guerra. A ansiedade e a tristeza, que alguns leitores, assim como eu, compartilham enxergando através dos olhos de uma criança. Graças à Jesus, Maomé, Trimúrti ou Guru Nanak, eu sigo tentando acreditar que a bondade ainda é inerente ao ser humano.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

Os motivos de eu escrever… – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares

Escrevo ao longo dos últimos 14 anos. Dez deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater à verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há alguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

Certa vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo; escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabe aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara – é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações públicas de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia – e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou do meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

* Crônica republicada.