Tudo finito, tudo infinito…(lindo texto de Carla Nobre)

Amanheci pensando em Deus e na minha professora de 3ª série. Ela que me ensinou essa coisa complicada de conjunto finito e infinito. Aquele círculo fazendo um cercadinho em três bolas, duas pessoas ou cinco sorvetes. Finito. As estrelas e os números. Infinito. Parecia simples de entender e acho que até consegui um 10. O grande problema a resolver é que a gente vai ligando os conceitos ao longo da vida e a classificação exata dos conjuntos vai se complicando.

Deus entra nessa história quando criou tudo bonitinho no cercado do paraíso. O primeiro homem, a primeira mulher, a nudez, a vida, a maçã, a serpente e até descansou no sétimo dia, achando talvez que seu conjunto tinha ficado perfeito. Aí, penso eu, os dias foram se passando e o conjunto do paraíso com toda a vida e a beleza, ficou um pouco imperfeito para Deus. Penso ainda mais, ele deve ter tido uma boa conversa com a serpente para que ela o ajudasse na empreitada de fazer com que o mundo, seu lindo mundo, se ampliasse para além daquele cercadinho finito.

Eu, parece que vejo a serpente dizendo, – mas Senhor, vou acabar levando a fama da maldade, imagina tirar duas pessoas da vida perfeita… – não tem problema, disse Deus com aquele jeito de pai, – eu te dou o veneno e as cores certas para você espantar essa fama. E aproveito para deixar você com o sangue frio necessário para entender quem adora julgar. E assim foi feito. Deus ajudou a gente a sair do paraíso e a conhecer um pedaço do seu conjunto infinito. É engraçado como as vezes podemos marcar o dia de um nascimento, até mesmo a hora exata, escolher as condições melhores… mas o dia da morte, desde que perdemos o paraíso, vem sendo uma surpresa a mais na bondade de Deus. Nos pega desprevenidos.

Talvez para que possamos perceber que os tais conjuntos finitos e infinitos são realmente complicados. Há sempre grandes perguntas sem respostas quando temos em um cercadinho três bolas, duas pessoas, cinco sorvetes… e o que dizer das três marias da infância? Ou ainda de um simples número ímpar? E em que conjunto colocar ao certo o momento da partida de alguém? De repente todos os possíveis conjuntos finitos desse alguém viram infinitos conjuntos de lembranças espalhados no cosmos… eu amanheci com vontade de reencontrar minha professora e pedir que me tirasse aquele possível 10 que peguei na 3ª série.

Acho uma injustiça não ter aprendido a beleza dos conjuntos finitos. E se pudesse agradecer a Deus por alguma coisa do conjunto infinito que ele nos deu, eu agradeceria o conjunto finito da minha vida. É que assim acho que entendo mais dos conjuntos infinitos que cabem nos conjuntos finitos dos dias que reparti um sorvete com algumas pessoas amadas e daqueles dias que findei a tarde jogando queimada com uma bola velha e alguns amigos de infância… tudo finito, tudo infinito…

Carla Nobre é poetisa, escritora, professora e militante cultural.

O ADVÉRBIO É UM TERMO ACESSÓRIO! (crônica de @Ricobluesman)

Crônica de Ricardo Pereira

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Não tenho medo da dor. Não tenho medo do sofrimento. Já tive. Hoje aprendi a encará-los de outra maneira. Aprendi que tudo tem começo, e, se tem começo, vai ter fim. O problema, de fato, consiste em saber administrar o advérbio de tempo. Administrar a ansiedade, a própria dor e a incomensurável pena que sentimos de nós mesmos.

Isso não vem de hoje. O homem sempre teve dor, sempre sofreu, e fez questão de demonstrar isso falando, cantando, chorando, brigando, gritando, enfim… desabafando todo seu sentimento. Basta ler as cantigas medievais para se dar conta disso. Minha professora de literatura portuguesa, na universidade, disse certa vez uma coisa interessante sobre o tema dessas cantigas: “Observem que os autores dessas obras não cantam doreimages11s que fazem parte apenas do universo do homem medieval, mas do universo do próprio homem, incluindo-se aí as dores do homem contemporâneo”.

Ela sabia o que dizia. As dores são as mesmas, as causas também. O que muda são os atores, o ambiente e… o advérbio de tempo! Fora isso é tudo igual. O homem em sua essência não muda.

Por seu caráter egocêntrico, o homem tende a voltar-se sempre para o próprio umbigo e minimizar a dor alheia. A sua sempre é maior, mais dorida. É compreensível então que a autocomiseração aflore nos momentos em que sofremos. Às vezes ela – a autocomiseração – é justificável. images-26Eu até a entendo, entretanto, não gosto dela. Parece-me uma fraqueza ridícula e uma tentativa de chamar a atenção dos outros para si (principalmente do pivô da dor). Digo isso sem o orgulho besta de quem se diz imune à dor. Eu não lhe sou imune, eu a sinto, mas não a temo. Antes, convivo com ela. Deixo-a ter o seu momento para que ela saiba que eu também terei o meu, quando a abandonarei e novamente iniciarei minha busca. Talvez por novas dores, não sei. Mas tudo na vida é ciclo: há o início, o meio e o fim.

Temor, desconfiança e medo são sentimentos próprios do homem. Não devemos fugir deles, e nem enfrentá-los, mas compreendê-los, aceitá-los. Talvez assim entendamos melhor que ele, o medo, e ela, a dor, não são tão maus assim. São naturais, como diria Alberto Caeiro (muito embora ele não achasse tão natural pensar).

images-43Uma frase – não sei se é mesmo minha, ou se ouvi nalgum lugar, mas que me acompanha desde muito tempo – sintetiza: “Não tenha medo de sentir medo”. Costumo lembrá-la quando inicio um relacionamento. Nessa hora, é engraçado, a maioria das pessoas se questiona: “Será que vai durar?”, “E se eu sofrer?”, “Acho que não vai dar certo!”. Eu não me questiono. Às favas com o advérbio, tanto o temporal quanto o condicional! Minha preocupação maior é em “ler” a pessoa que está comigo, aprender com ela, absorver e ensinar lições. Isso é o que me interessa. Isso é o que me motiva conhecer pessoas, envolver-me com elas. Por fim, parafraseando o “Boca do Inferno” eu digo: – Isso é o que é. O que importa. Quem diz outra coisa é besta!

Ricardo Pereira (professor e líder da banda Manoblues), 30/05/99.

PRECE DOS COMUNICADORES

PRECE DOS COMUNICADORES

“Senhor dá-me a tolerância/e o dom da crítica que ergue a humanidade porque vivo sujeito ao curso dos contrários.
/Dá-me a sensatez e a voz que os inimigos que porventura tenho não possuem/ para que respeitem a opinião que teço diariamente/ e o valor que tenho, assim como sou e como mereço”

Fernando Canto

14º FIM – Audiovisual: arma e refúgio (filmes selecionados)

 

Por Alexandre Brito

Ao longo desses 14 anos de Festival, passamos a criar para cada edição do FIM um mote que norteia e perpassa todo o processo de organização do evento, nossas escolhas de convidados, o trabalho da curadoria, a identidade visual, o teaser… E para este ano de 2017, tomamos como mote “Audiovisual: arma e refúgio”. Entenda:

Se a disposição física necessária para vermos um filme é nos posicionarmos diante de uma tela, a forma cognitiva de perceber um filme nos liberta dessa dicotomia tela-sujeito e nos permite habitar um filme, tê-lo como um lugar, como refúgio. Por outro lado, assim como um papel em branco era considerado arma perigosa pelo estado no romance clássico de George Orwell, “1984”, a obra audiovisual, por vezes, revela sua face “arma”: atacando ideias ou as defendendo.

Em uma sociedade cada vez mais mediada por telas, entender o papel multiface do audiovisual é uma necessidade. Historicamente, construiu-se a narrativa do audiovisual como entretenimento e ele o é, inegavelmente. Mas não só. O audiovisual é polifônico, é discurso, é narrativa, é simulacro. O próprio conceito de multimídia já se mostra limitado demais para dar conta da tarefa de definir o audiovisual.

Por isso, a 14ª edição do Festival Imagem-Movimento traz uma perturbação: nesse mundo de diásporas, de conflitos declarados ou velados, de avanços que parecem nos levar a retrocessos, o audiovisual pode ser nossa arma e nosso refúgio, como queiramos. Mais um FIM se aproxima. Queira.

Depois de receber 75 inscrições provenientes de 17 estados brasileiros e dois filmes internacionais (Bélgica e EUA), a curadoria do 14ª FIM tem a honra de divulgar a lista dos filmes selecionados e convidados para sua programação, que acontece de 3 a 9 de dezembro. O audiovisual independente brasileiro tá bonito de se ver.

Parabéns e obrigado aos realizadores de todo o país por terem compartilhado conosco seus olhares!

14º FIM – Audiovisual: arma e refúgio.

A CHULA
Direção: Carlos Haussler
Origem: Macapá (AP)
A HISTÓRIA DE ZAHY
Direção: Otoniel Oliveira
Origem: Belém (PA)
APESAR DE TUDO
Direção: Janaina Dórea
Origem: Rio de Janeiro (RJ)
ALGO DO QUE FICA
Direção: Benedito Ferreira
Origem: Goiânia (GO)
ATRIUM
Direção: Auchentauler Campos de Lima
Origem: Belém (PA)
AZUL CARNE
Direção: Lucas Leônidas
Origem: São Paulo (SP)

BODAS DE PAPEL
Direção: Keyci Martins e Breno Nina
São Luís (MA)

CANDEIAS
Direção: Reginaldo Farias e Ythallo Rodrigues
Origem: Juazeiro do Norte (CE)
CARTA SOBRE O NOSSO LUGAR: MULHERES DO VILA NOVA
Direção: Rayane Penha
Origem: Macapá (AP)
CERCADOS PELA MORTE
Direção: João Vitor Ferian
Origem: Itapira (SP)
CINE IDEAL
Direção: Ricardo D’Almeida
Origem: Rondon do Pará (PA)
COXINHA
Direção: Cristiano Sousa e Ivan Martins
Origem: Goiânia (GO)
CLAUSURA
Direção: Mariana França e Gildo Antonio
Origem: São Bernardo do Campo (SP)
CLAMOR
Direção: Jomar Quaresma
Origem: Macapá (AP)
CURTIU?
Direção: Dominique Allan
Origem: Macapá (AP)

DANCER FASSBINDER
Direção: Felipe Cortez
Origem: Belém (PA)

ENTRE O LÁPIS E O PAPEL
Direção: Leo Collette
Origem: Rio de Janeiro (RJ)
EM TORNO DO SOL
Direção: Julio Castro e Vlamir Cruz
Origem: Natal (RN)
FREQUÊNCIAS
Direção: Adalberto Oliveira
Origem: Recife (PE)

HACKER
Direção: Rafael B. Silva
Origem: Belém (PA)
HIC
Direção: Alexander S. Buck
Origem: Vitória (ES)

IMBILINO VAI AO CINEMA
Direção: Samuel Peregrino
Origem: Goiânia (GO)
IMERSIO
Direção: Núcleo de Produção Audiovisual/Tiago Quingosta/Uliclelson Luís
Origem: Macapá (AP)
INTERMITÊNCIAS SOBRE MACAPÁ
Direção: Aron Miranda e Tami Martins
Origem: Macapá (AP)

LALU DE OURO – O PRIMEIRO MESTRE SALA
Direção: Becca Lopes
Rio de Janeiro (RJ)
LATOSSOLO
Direção: Michel Santos
Origem: Luís Eduardo Magalhães (BA)
LAMBES QUE GRITAM
Direção: Salomão Cardoso
Origem: Macapá (AP)
LOUÇA DE DEUS
Direção: Eudaldo Monção Jr.
Origem: Nazaré (BA)
LÚCIA VOLTOU A FUMAR
Direção: Iuri Bermudes da Silva Weinberger
Origem: São Paulo (SP)

MANIFESTO PORONGOS
Direção: Thiago Köche
Origem: Porto Alegre (RS)
MÃE DE OURO
Direção: Monica Palazzo
Origem: São Paulo (SP)
MÃES DE UMBIGO: HISTÓRIA DAS PARTEIRAS DO AMAPÁ
Direção: Vitória Gonçalves Pereira Greve
Origem: Macapá (AP)

NÃO É PRESSA, É SAUDADE
Direção: Camilla Shinoda
Origem: Brasília (DF)
NOITE PÚRPURA
Direção: Caroline Biagi
Origem: Curitiba (PR)

OBRIGADOS
Direção: Henrique Grise
São Paulo (SP)

PÁSSAROS NA BOCA
Direção: Gustavo Ribeiro
Origem: São Paulo (SP)
PEDAÇOS DE PÁSSAROS
Direção: Andrei Miralha e Marcílio Costa
Origem: Belém (PA)
PÉ NA TÁBUA… VIDA QUE SEGUE
Direção: Cervantes Sobrinho e Lucíola Figueiredo
Origem: Campos do Jordão (SP)
PISKA
Direção: Nelson Brauwers e Andruz Vianna
Origem: Braga (RS)
POR CONTA DA CASA
Direção: Flávio Costa
Porto Alegre (RS)
PRÓXIMA
Direção: Luiza Campos
Origem: São Paulo (SP)

VACA PARIDA
Direção: Diogo Cronemberger
Origem: Alvinópolis (MG)

SOBRE QUEDAS E QUEDARES
Direção: Carla Antunes
Origem: Macapá (AP)

KAYKA ARAMTEM: SABER E TRADIÇÃO DE UM SÁBIO ARUKWAYENE
Direção: Elissandra Barros da Silva e Carina Santos de Almeida
Origem: Oiapoque (AP)

FILMES CONVIDADOS
NOITE SUJA
Direção: Allyster Fagundes
Origem: Belém (PA)

LADO B – O ROCK PARAENSE DOS ANOS 80
Direção: Janine Valente
Origem: Belém (PA)

MESTRES PRAIANOS
Direção: Artur Arias Dutra
Origem: Maiandeua (PA)

MARAJÓ DAS LETRAS
Direção: Fernanda Martins
Origem: Belém (PA)

O CAMINHO DAS PEDRAS
Direção: Alexandre Nogueira e Fernando Segtowick
Origem: Ananindeua (PA)

ROSARIO
Direção: Renato Vallone
Origem: Brasil/Bolívia

DIVINAS DIVAS
Direção: Leandra Leal
Origem: Brasil

ERA O HOTEL CAMBRIDGE
Direção: Eliane Caffé
Origem: Brasil

PARA TER ONDE IR
Direção: Jorane Castro
Origem: Brasil

NÚMEROS DO FESTIVAL
– Total de inscritos: 75
– Selecionados: 44

– Origem dos filmes inscritos:
Nacionais:
ES: 1
SC: 1
CE: 1
SE: 1
RN: 1
MA: 1
BA: 2
MG: 2
DF: 3
PR: 3
GO: 3
PE: 4
RS: 6
RJ: 7
PA: 9
AP: 12
SP: 16
Internacionais:
Bélgica: 1
Estados Unidos/Brasil: 1

– Produções amapaenses inscritas: 12
– Selecionadas: 10

– Produções convidadas: 9

Fonte: FIM

Papo firme de William Bonner – @realwbonner

Algumas pessoas se imaginam no direito de agredir adultos que tomaram decisões sobre as vidas deles. O simples fato de o bem-estar dessas pessoas ser tão afetado pelos caminhos que os outros escolheram pra si é um indicativo de que elas precisam de ajuda. Seja psicológica, seja psiquiátrica, seja espiritual. Isso não é saudável. Saudável é viver a própria vida. Aproveitá-la como uma benção. Essas pessoas cheias de ódio e agressividade insultam e opinam sobre algo que não diz respeito a elas de forma nenhuma. O pior é que elas têm na cabeça uma interpretação amalucada daquilo que teria levado os outros a tomar as decisões que tomaram pra suas próprias vidas.

É uma fantasia elaborada com base em preconceitos, fofocas, equívocos, invenções, inveja, sonhos frustrados. E isso não faz sentido nenhum. No espaço de comentários de uma foto de paisagem, essas pessoas expõem seus preconceitos, seus recalques, sua desinformação de uma forma deprimente. E palpitam sobre as vidas de outras pessoas de maneira absurda. Às vezes, até criminosa, em tom de ameaça. Um sujeito saudável e feliz consigo mesmo não faz isso. Pessoas que agem dessa maneira talvez se ajudassem muito se olhassem atentamente pra elas mesmas e identificassem suas próprias frustrações. Viveriam a vida delas, em vez de tentarem viver vidas de outros.

Saudável é trilhar o caminho pavimentado pelo respeito aos outros. Respeito às decisões que outras pessoas tomam sobre as vidas delas. Respeito ao direito que todo mundo tem de buscar a própria felicidade. Que só se completa quando também é encontrada por quem você ama, ou admira, ou simplesmente respeita. Todos com quem você construiu laços pra vida. Você só consegue a felicidade plena se essas pessoas também estiverem felizes. E, quando isso acontece, é mágico. Os sorrisos espontâneos se multiplicam, tudo ganha leveza e luz.

Os insultadores intrometidos não enxergam isso. São cegos pra felicidade dos outros porque não enxergam o quanto eles próprios são infelizes. Mas o porquê dessa infelicidade toda só eles podem encontrar. Que tenham boa sorte.

William Bonner – jornalista, publicitário, apresentador e escritor. É editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão.

Dicas do Fernando Bedran para o Feriado

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Fernando Bedran

Dica para o feriado?
Desligue a TV.
Use o mínimo de celular e net.
Faça e coma o rango de sua preferência.
Curta sua família e amigos com muita alegria.
Escute boa música.
Seja você mesmo e reflita se não está viajando demais na barca “da Maria vai com as outras”, pense por você, decida por você.
Não recrute para sua cabeça mágoas, rancores, pessoas sórdidas, hipócritas e nefastas.
Saia um pouco da mesmice viciante do dia a dia e sorria muito, inclusive de você mesmo.
Abrace forte quem estiver por perto.
Reze ao DEUS de seu coração pelos menos favorecidos e os que estão em desencanto.
Aprenda algo e ensine algo.
Se beber ,beba uma por mim.
Se não, sorria mesmo assim.
Bom feriado em harmonia com o todo!

Fernando Bedran

Uma Crônica Otimista (Ou a distopia de uma distopia) – Por Jaci Rocha

Crônica de Jaci Rocha

Fazia tempo que não o via. O ”artista da fome” da minha cidade, como sempre ‘faminto’, caricato e mudo, com sua guitarra interior arranhando a paisagem, para receber aplausos da platéia, que aplaude como quem joga moedas ao chão, por piedade. Por piedade, aplaudo.

Foi talentoso e todo mundo enxerga nele ‘um figura’ com quem se parecia: Ele mesmo, quando tinha um nome. A maioria ao redor não olha de frente para seu rosto, observo. É quase respeitoso o gesto. E constrangedor, de ver a transmutação do artista.

Aos poucos, na sua própria cela interna, ele deixa de ser pessoa e vira apenas o espetáculo, o show. Não é mais. Deixou de ser, apagou seu nome de si, com a borracha do vício. Não é um maluco a se divertir e rir de nós, com nossos horários e rituais de socialização. Não se trata disso. Ele resiste de morrer enquanto desiste de viver.

Ultrapassou a linha. Foi além da margem e caiu no precipício.

Do vício de ser um espetáculo. Do vício da tristeza. Do vício no vício.

…mas, quase por instinto, reescrevo esta história em minha cabeça.

Ele levanta de dentro de si, sai da cela, olha todo mundo e diz: vou bem ali, fumar um

cigarro. Volta com a coluna reta. E novamente torna a ter alguma expressividade no olhar. Tem uma noite memorável com as pessoas ao redor, que chama de ‘amigas’. Fala que vai investigar gente ‘importante’ e fazer e acontecer com um pessoal aí. Volto a sentir antipatia por seu trabalho – sim, pois não se sente antipatia por espectros. Só desperta antipatia quem exerce a arte de “se ser”.

Ele sai de cena para uma matéria super secreta, que tempos depois, vai ajudar a desmanchar uma incrível rede de corrupção no Estado. A partir daí, não o veremos mais. Mas boatos espalharão que virou espião ou correspondente secreto e investigativo de uma emissora de televisão intergaláctica.

Academia Amapaense de Letras empossa 12 novos imortais

Foto: Dulcivânia Freitas

A Academia Amapaense de Letras (AAL) empossou, na noite desta sexta-feira (27), no Centro de Convenções João Batista de Azevedo Picanço, mais 12 membros. Agora a AAL possui 22 acadêmicos imortais.

Fundada em 21 de junho de 1953, data escolhida por conta de ser o mesmo dia do aniversário do escritor Machado de Assis, a Academia Amapaense de Letras surgiu como uma entidade civil, sem fins lucrativos e com o objetivo de promover o desenvolvimento literário, cultural, científico e artístico do Amapá. Seu primeiro presidente foi o professor de português e literatura Benedito Alves Cardoso.

A cerimônia foi conduzida pelo presidente da AAL, professor Nilson Montoril de Araújo, com o auxílio do secretário da entidade, o sociólogo e poeta (além de queridíssimo amigo nosso) Fernando Pimentel Canto. Também compuseram a mesa de honra do Silogeu, o vice-presidente, Manuel Bispo Correa; e o diretor de biblioteca, Luiz Alberto Costa, todos membros da direção da Academia Amapaense de Letras.

A belíssima solenidade marcou uma nova fase na existência do Silogeu (Casa onde se reúnem associações literárias ou científicas) do Amapá, que é a vanguarda da cultura amapaense e representa respeito e reconhecimento por aquelas que produzem e reproduzem arte e conhecimento através de manifestações literárias no Estado. Ainda durante o evento, foi anunciado um futuro edital, para mais 18 vagas nesta Academia.

Foto: Aloisio Menescal

Os novos acadêmicos imortais são:

Cadeira nº 01 – Gilberto de Paula Pinheiro (Patrono: Acylino de Leão Rodrigues e Fundador: Heitor de Azevedo Picanço; Cadeira nº 07 – Benedito Rostan Costa Martins (Patrono: Deusolina Sales Farias e Fundador: Amaury Guimarães Farias); Cadeira nº 14 – Piedade Lino Videira (Patrono: Hildemar Pimentel Maia e Fundadora : Aracy Miranda de Mont’Alverne); Cadeira nº 15 – Fernando Rodrigues dos Santos (Patrono Janary Gentil Nunes e Fundador: Estácio Vidal Picanço); Cadeira nº 20 – César Bernardo de Souza (Patrono: João Távora e Fundador: Elfredo Távora Gonçalves); Cadeira nº 25 – Alcinéa Maria Cavalcante Costa (Patrono: Mendonça Júnior e Fundador: Alcy Araújo Cavalcante); Cadeira nº 28 – Cléo Farias de Araújo (Patrono: Júlio Maria de Lombaerde e Fundador: Jorge Basile); Cadeira nº 29 – Manuel Azevedo de Souza (Patrono Paulo Euletério e Fundador: Arthur Nery Marinho); Cadeira nº 31 – Paulo Tarso Silva Barros (Patrono: Paul Ledoux e Fundador: José de Alencar Feijó Benevides); Cadeira nº 33 – Francisco Osvaldo Simões Filho (Patrono: Roque Penafort e Fundador: Hélio Guarany Penafort); Cadeira nº 38 – José Queiroz Pastana (Patrono: Vicente Portugal e Fundador : Antônio Munhoz Lopes); Cadeira nº 40 – Carlos Nilson da Costa (Patrono: Walkiria Lima e Fundador: Isnard Brandão de Lima Filho.

Foto: Aloisio Menescal

Todos os membros da instituição são importantes, pois estão no olimpo da nossa cultura e são a representação da nossa literatura, mas neste texto, parabenizamos os queridos Fernando Canto (que já era acadêmico antes de ontem) e os amigos César Bernardo, Paulo Tarso Barros, Carlos Nilson Costa, Rostan Martis e, especialmente, Alcinéa Maria Cavalcante Costa.

O Amapá precisa preservar, reconhecer e homenagear seus grandes nomes em todas as áreas de atuação. Esse é um momento de reconhecimento.

Foto: Aloisio Menescal

Quanto à Néa, em um eufemismo poético, a bem amada do tio Alcy Araújo sentou no colo e na cadeira do pai, na Academia Amapaense de Letras, como Imortal.

O momento foi de grande deleite e emoção para nós, que militamos, sonhamos e vivenciamos a cultura deste Estado, que enraíza e frutifica a identidade Amapaense, permeada pelas mais diversas manifestações artísticas.

Alcinéa, jornalista, professora, poeta da segunda geração de poetas do Amapá, integrante e uma das criadoras do movimento Poesia na Boca da Noite e da Associação literária do Amapá (Alieap), entre outras tantas coisas fantásticas que é, sentou na 25º Cadeira como Imortal.

Foto: Paulo Tarso Barros

Ontem, a Academia Amapaense de Letras ganhou no céu dos imortais a linda Estrela azul da poesia, com sua Paisagem Antiga, versos de açúcar atemporais e leveza incomparáveis.

Nós aplaudimos e também nos emocionamos, pois além do imenso talento da Alcinéa, que já atravessou o Rio Amazonas e deu a volta ao mundo, temos por ela um grande amor e admiração.

Elton Tavares e Jaci Rocha

ADORADORES DO LIVRO IMPRESSO (*) – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Desde o surgimento dos computadores pessoais que ouço falar no fim do livro impresso. E já se vão anos.

Cientistas falam de um mundo novo, de substituição de tecnologias, e apontam como exemplo a revolução sem igual na história que foi a invenção do livro impresso, por Gutenberg, pois antes disso só havia livros copiados, manuscritos que valiam fortunas. A revista Superinteressante do mês passado traz um artigo muito atual sobre o assunto, enfatizando esses aspectos inclusive com a informação de que a revolução citada acima já acabou há dez anos, “quando a internet começou a crescer para valer”, e que ela passaria uma borracha na história do papel impresso e começaria outra. Cita que “os 7 milhões de volumes que a Universidade de Cambridge mantém hoje nos 150 quilômetros de prateleiras de suas várias bibliotecas caberiam em quatro discos rígidos de 500 gigabytes. Só quatro. Sem falar que ninguém precisaria ir até Cambridge para ler os livros”.

Mas apesar disso tudo a internet não mudou muito a história dos livros. Permanece um mistério inexplicável. O livro não foi morto nem enterrado. A Super diz que o segundo negócio online que mais deu certo (depois do Google) é uma livraria, a Amazon. E informa também que o mercado de livros eletrônicos deslanchou nos E.U.A com vendas em torno de 350 milhões de dólares em 2009, sendo que em 2008 elas atingiram um patamar inferior a 150 milhões.

Concordo que ler um livro no computador é um negócio ruim, até mesmo insuportável, porque ler por horas numa tela é o mesmo que ficar olhando uma lâmpada acesa. Não há quem aguente. Porém já apareceu (há três anos) o primeiro livro realmente viável: o Kindle, da Amazon, que cabe 1.500 obras e só pesa 400 gramas. Tem tela monocromática e pequena. Ele não emite luz e a tela é feita de tinta, preta para as letras e branca para o fundo. No início deste ano apareceu o iPad, da Apple, que segundo a revista citada, “tudo o que o Kindle tem de péssimo este tem de ótimo: tela enorme, colorida, páginas que você vira com os dedos, sem botão como se estivesse com um livro normal, mas a tela é de LCD. Não dá para ler um romance inteiro nele”.

Agora dezenas de empresas estão trabalhando para unir o que os dois têm de melhor, até chegarem ao livro eletrônico perfeito. A Phillips, por exemplo desenvolve o protótipo Liquavista, com tela de tinta colorida e a Pixel Qi um com LCD sensível ao toque, mas que não emite luz, de acordo com a informação da Super.

Mas enquanto o “livro perfeito” não vem vou fazendo como os adoradores de livros impressos o fazem sem pestanejar: curtir meu afeto por eles. Quantas pessoas, apaixonadas ou não, já não guardaram dentro deles flores, folhas, cartas, bilhetes, e até mechas de cabelos que lhes trazem boas lembranças, de amores e de desilusões? Folheá-los pode significar o encontro com algumas cédulas de real guardadas por acaso para uma ocasião e esquecida sem querer. Arrumá-los na estante é um trabalho que nunca dá preguiça. Lê-los, sobretudo, é apreender e conhecer o legado da Humanidade. No livro eletrônico essas historinhas bobas de quem ama os livros não seriam possíveis.

Recentemente, ao receber meu livro “Adoradores do Sol” da editora que o confeccionou, confesso do prazer de senti-lo ao tocar sua capa e abrir suas páginas, de ver impresso um trabalho de anos, da satisfação de tê-lo nas mãos e de saber que iria compartilhar com meus queridos leitores as informações e opiniões que deixei escritas em um objeto vivo, que todos podem, como eu, acariciar e carregar nas mãos. Que venha o livro eletrônico. Tudo muda, mas o livro impresso ainda é o bicho.

(*) Texto escrito em abril de 2010 (portanto, desatualizado tecnicamente) e publicado no jornal A Gazeta. Mas, vale ressaltar que os shoppings estão, ainda, cheios de livrarias.

Lição do saudoso jornalista Corrêa Neto

CorreaNeto

Certa vez, lá em 2012, li no site do lendário jornalista Corrêa Neto:

“Faz muita falta uma oposição inteligente em qualquer sociedade. A oposição inteligente constrói, a burra nem consegue destruir, a menos que o poder seja ocupado por gente tão burra quanto ela. A oposição inteligente enlouquece quem não está preparado para o exercício do poder, porque sua preocupação não é a mesquinharia, nem a insignificância. Seu alvo está mais adiante: é a qualidade de vida de todos. A partir daí sua argumentação passa ser irrefutável, e só aceita ações positivas como resposta“.

Atemporal, não acham?

“Meu sorriso de Adeus” – Por @KiaraGuedes

Por Kiara Guedes

Amigo, vai comigo no rock da praça? Por favor, poxa. Papai não vai me deixar ir sozinha…

Depois de muito apelo, meu amigo de infância, em quem meus pais confiavam levar/acompanhar a filha adolescente no rock, chegou, pedi que me esperasse na “sala de música”, escutando música. Ser filha de músico, sobrinha, irmã de músicos me proporcionou ter uma sala, com uma televisão, quase nunca ligada, mas com muitos instrumentos musicais, e no decorrer do tempo, um sucessão de aparelhos reprodutores de música.

Estava tocando Luiz melodia, deixei, era um chorinho. Então eu fiquei pronta e a conversa foi sobre como eu me preparava pra ir ao rock escutando um chorinho, mas veja que só que pergunta, Luiz Melodia e principalmente Chorinho não tem hora pra ser escutado, amigo!, eu lembro da resposta.

Nem moda nem onda, Luiz Melodia continou a tocar, e hoje você o acha em mais um dos meus “aparelhos” de reprodução de música, “o sigo” na verdade, em meu spotify. As manhãs felizes inclusive, sempre tiveram basicamente uma trilha:

“Hoje eu acordei bem cedinho, estava preso num chorinho, falando de Amor e passarinho…”

Hoje a trilha pela manhã foi de tristeza para o país inteiro, e ouso usar mais um clichê e dizer que mais um gênio musical foi fazer um samba do outro lado. E embora o evento morte seja “Congenito” da vida, nunca “compreendemos mais… porque tudo que se tem não representa nada”, e deve ser mesmo porque somos incapazes de tomar o conselho de que “se a gente falasse menos…”.

Enquanto escrevo, meu menino aqui do lado me pede pra colocar um rock pra que os Dinossauros de brinquedo lutem, eu explico que gostaria que ele curtisse um Chorinho – Fadas – comigo e então eu coloco o rock. Ele aceitou e eu sorrio.

“Twist, eu sei que existiu
Rock’n’ Roll, não sei se eu vou
Não sei se a onda é samba
Se é moda ou tudo onda…”

MUNHOZ E A ARTE – Por Fernando Canto

Fernando Canto e o professor Munhoz – Última foto de velhos amigos

Prezados amigos, é um pouco difícil falar sobre o professor Munhoz neste momento doloroso de sua partida definitiva, sua última viagem. Ele deixará um vazio enorme na cultura amapaense, não só pela sua atuação no sacrossanto trabalho no magistério, mas sobretudo pelo homem que foi: um paladino das letras e das artes plásticas, que formou milhares de pessoas e que acreditava num mundo mais justo e melhor para todos.

Era um crítico ferrenho e um professor austero. Um cidadão justo, um católico intransigente .

Mas também era uma pessoa alegre, sempre disposta a ouvir os causos contados pelos amigos.

Mesmo não tendo sido seu aluno, aprendi muito com ele sobre História da Arte, matéria que falava com profundeza, arrematando estilos, escolas e artistas consagrados com a experiência de quem visitou centenas de museus em dezenas de países.

Fomos membros do Conselho Territorial de Cultura e nas últimas semanas estávamos reestruturando a Academia Amapaense de Letras, juntamente com seus ex-alunos Paulo Guerra, Manoel Bispo, Nilson Montoril e Antônio Carlos Farias.

Essa lacuna nunca será preenchida, pois Munhoz era ímpar no seu metier como crítico e intelectual das artes no nosso Estado.

Agora ele só precisa de preces e do nosso verdadeiro reconhecimento como insigne mestre que foi e um amigo mais velho que não parava de ensinar e de dignificar o que fazia.

Macapá, 23 de maio de 2017
Fernando Canto

Bicampeã pan-americana vende doces para disputar torneios

Por André Silva

Apesar do currículo invejável recheado de 28 títulos e medalhas no jiu-jitsu e no judô, a atleta amapaense Tainá Feijão é mais um exemplo de falta de apoio às modalidades individuais. Ela precisa de patrocínio para participar de duas competições este ano. Com 28 anos, ela começou a lutar para se livrar da depressão e do sobrepeso.

Tainá Feijão vai disputar o torneio Mundial de Jiu-jitsu Esportivo, que acontece entre os dias 5 e 9 de julho em São Paulo; e também o São Paulo Open, entre os dias 1º e 2 de julho.

“As competições vieram para me auxiliar. Começou como desafio pessoal. Os resultados se mostraram positivos e aí eu fui em busca de resultados melhores”, lembrou a atleta.

Tainá Feijão nasceu no Pará, mas foi criada no Amapá. A primeira conquista veio com a primeira competição, o Campeonato Brasileiro Região Norte, em Belém. Daí não parou mais. Ela é Bicampeã Pan-americana, medalhista em cinco campeonatos brasileiros, Bicampeã norte Brasil, vice-campeã paulista, campeã da Copa Osasco, entre outros.

Além de jiu-jitsu, a atleta luta também judô. Até agora foram duas participações em competições e dois pódios.

Ela se queixa das mesmas coisas que a maioria dos atletas do Estado: falta de patrocínio. As dificuldades para manter os treinos e custear as viagens são os maiores desafios que ela enfrenta. A família de Feijão se juntou à causa e vende doces para ajudar nos gastos com suplementos e academia. Segundo a atleta, a ajuda vem dando resultado.

O grande empecilho para ir às grandes competições é sair do Estado. É muito difícil e caro. Os atletas do Pará, por exemplo, têm mais facilidade porque eles conseguem chegar de carro até os grandes polos de competição que são Rio de Janeiro e São Paulo”, comparou a atleta.

Ela pretende embarcar no próximo dia 28 para ter mais uns dias de treino no local da competição. A atleta disponibilizou um número de telefone para quem puder e quiser ajudar nesse projeto: 98133-6424 (Gê Publicidade).

Fonte: SelesNafes.Com